A Polícia Federal investiga quanto dinheiro foi captado para financiar Dark Horse, filme sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro, e por quais estruturas os recursos passaram. A produtora Go Up Entertainment afirma, com base em perícia privada, que a obra custou US$ 13,4 milhões, aproximadamente R$ 75 milhões.
O financiamento, porém, envolve valores e fontes diferentes. Flávio Bolsonaro procurou Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, para buscar recursos para o projeto. As investigações apontam que o valor negociado chegou a US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões na época. Vorcaro teria destinado US$ 12,33 milhões, hoje próximos de R$ 63 milhões, por meio da Entre Investimentos ao Havengate Development Fund, sediado nos Estados Unidos.
Flávio confirmou que o investimento relacionado a Vorcaro ficou em “12 milhões e alguma coisa de dólares”. A perícia apresentada pela Go Up afirma que o Havengate bancou todo o custo da produção, mas o documento foi elaborado com material fornecido pela defesa e não identifica nominalmente Vorcaro nem detalha todos os financiadores.
Recursos que chegaram à produtora
Documentos analisados pela Polícia Federal e pelo Coaf mostram ainda créditos diretos nas contas da Go Up entre 10 de novembro e 30 de dezembro de 2025. Nesse intervalo, a produtora recebeu aproximadamente R$ 8,95 milhões.
Os principais remetentes foram Moneycorp Banco de Câmbio, com R$ 3,92 milhões; GO7 Assessoria, Produção e Marketing Cultural, com R$ 2,61 milhões; Marcello de Oliveira Lopes, com R$ 1 milhão; NTT Brasil, com R$ 750 mil; e Mário Frias, com R$ 645,4 mil.
Parte dessas transferências pode não representar uma fonte independente de financiamento. A Moneycorp atua no mercado de câmbio, enquanto a GO7 pertence a Karina Gama, que também controla a Go Up. O publicitário Marcello Lopes, ex-marqueteiro de Flávio Bolsonaro, disse que o R$ 1 milhão foi um investimento privado feito com recursos próprios. A Polícia Federal não atribuiu irregularidade específica ao pagamento.
Emendas parlamentares sob análise
A Polícia Federal também apura o destino de R$ 2 milhões em emendas destinadas por Mário Frias a entidades comandadas por Karina Gama. Frias é produtor-executivo e um dos roteiristas de Dark Horse.
Relatórios da Controladoria-Geral da União apontaram irregularidades na execução dos projetos. Em uma das linhas investigadas, R$ 700 mil recebidos pelo Instituto Conhecer Brasil foram repassados à Dinâmica Editora e ao Instituto Super Poder Educacional. Depois, a NTT Brasil, ligada ao mesmo grupo empresarial, transferiu R$ 750 mil diretamente para a Go Up.
A investigação busca saber se recursos públicos circularam por essas empresas até chegar à produção. Até agora, não foi concluído que os R$ 700 mil originários das emendas sejam os mesmos R$ 750 mil depositados na produtora.
O ministro Flávio Dino afirmou haver indícios, no “terreno hipotético da investigação”, de que Frias teria exercido papel de liderança na suposta arquitetura de desvio de emendas. O deputado nega irregularidades e diz que os recursos foram destinados a projetos sociais. A Polícia Federal também questiona a compatibilidade dos R$ 645,4 mil transferidos por Frias à produtora com os rendimentos declarados por ele.
Estrutura nos Estados Unidos
Documentos da investigação também registram a participação de Eduardo Bolsonaro. Segundo relatório da Polícia Federal, ele apresentou orientações sobre a administração dos recursos nos Estados Unidos e defendeu o envio da maior quantidade possível de dinheiro pelo modelo de remessas utilizado.
O Havengate foi criado por Paulo Calixto e Altieris Santana. Calixto é advogado ligado a Eduardo Bolsonaro. A Polícia Federal destacou que o fundo, originalmente voltado a operações imobiliárias e praticamente inativo, passou a receber recursos em fevereiro de 2025.
As informações públicas disponíveis não permitem afirmar que o dinheiro formalmente destinado ao filme tenha sido usado em despesas pessoais de Eduardo Bolsonaro ou de sua família.
A soma dos valores não permite concluir, por si só, quanto efetivamente financiou a obra, porque algumas operações podem representar etapas diferentes de circulação do mesmo dinheiro. As investigações ainda tentam identificar quem colocou recursos no projeto, quanto foi arrecadado, quais estruturas foram utilizadas e qual foi a destinação final.
Também permanecem sem resposta conclusiva questões sobre eventual uso de recursos captados para atividades sem relação direta com a produção, financiamento ou impulsionamento de conteúdo político e despesas que deveriam ser declaradas como gastos eleitorais.







