São Paulo, Segunda-feira, 21 de setembro de 2026
Política

Decoro deve ser cobrado antes da suspeita de crime

A legalidade é apenas o limite mínimo para autoridades; responsabilidade pública exige prudência, transparência e atenção ao exemplo.

Decoro deve ser cobrado antes da suspeita de crime
Foto: Wilton Junior/Estadão

A cobrança sobre quem exerce o poder não deveria começar apenas quando surgem suspeitas de peculato, corrupção, favorecimento ou outros crimes. Um relógio incompatível com a renda, uma viagem luxuosa sem explicação clara, negócios de familiares com pessoas dependentes de decisões públicas e festas patrocinadas por interesses privados já podem levantar dúvidas sobre a conduta de uma autoridade.

A pergunta “onde está o crime?” estabelece uma régua baixa para a vida pública. A lei define o limite a partir do qual uma conduta pode ser punida pelo Estado. O decoro, porém, trata do comportamento esperado de quem recebeu poder e responsabilidade pública. Cumprir a lei é uma exigência indispensável, mas não esgota o padrão de conduta esperado de presidentes, ministros, parlamentares, magistrados e dirigentes públicos.

Essas autoridades não representam apenas a si mesmas. Suas escolhas ajudam a estabelecer referências, normalizam práticas e sinalizam à sociedade o que o poder considera aceitável. Por isso, quanto maior a autoridade, maior deveria ser o cuidado com o exemplo e com situações que possam comprometer a percepção de independência, dignidade e responsabilidade do cargo.

Isso não significa transformar a vida pública em um tribunal moral nem condenar alguém apenas por aparências. Uma conduta pode ser legal e, ainda assim, incompatível com as expectativas associadas à função. O Código Penal não deve ser o único manual de comportamento de quem exerce o poder.

Partidos, Congresso, tribunais e órgãos públicos também deveriam reagir antes de uma investigação criminal. Códigos de conduta, regras de impedimento, transparência e mecanismos de responsabilização existem para preservar a confiança pública antes que um problema se transforme em caso de polícia.

A referência a Júlio César continua útil: à mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta. A exigência não valoriza a aparência acima da verdade, mas reconhece que a autoridade impõe o dever de evitar dúvidas razoáveis sobre interesses, conduta e independência.

Crimes devem ser investigados e punidos quando comprovados. A vigilância, no entanto, precisa começar antes. Entre o comportamento exemplar e o criminoso existe o território do decoro. É nesse espaço que a sociedade e as instituições devem elevar o padrão de cobrança.

Texto produzido pela Redação Mapa do Mercado com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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