SÃO PAULO — Uma eventual gestão de Flávio Bolsonaro no Itamaraty poderá adotar metas para diplomatas e concentrar a atuação brasileira em 35 países considerados prioritários. A proposta é apresentada por Marcos Degaut em reuniões fechadas com diplomatas e formuladores de política externa como uma adaptação do modelo implementado por Marco Rubio no Departamento de Estado americano.
O plano prevê que os funcionários se especializem em regiões geográficas e temas específicos, com objetivos relacionados a exportações, investimentos e inserção comercial. A estrutura de promoções também seria reformulada: a senioridade deixaria de ser um critério absoluto, e o desempenho no exercício das funções passaria a influenciar a ascensão na carreira.
Concentração de postos
Os 35 países formariam o chamado G35, que incluiria as nações participantes do G20. A ideia é reduzir a dispersão de recursos em várias embaixadas e reforçar alguns postos com mais orçamento e pessoal. África do Sul e Egito são citados como possíveis superpostos no continente africano.
Degaut descreve a proposta como “Marco Rubio overhaul” e afirma que ela representaria uma ampla reestruturação das carreiras do Itamaraty. O modelo americano mencionado incluiu a eliminação de 1.300 vagas, o fechamento de departamentos e postos e a adoção de metas quantitativas e qualitativas.
No Departamento de Estado, o mérito passou a ser apontado como principal critério para promoções, em vez do tempo de carreira. Também houve aumento da presença de indicados políticos entre os embaixadores: apenas 9% vêm do serviço diplomático, enquanto o percentual variou de 57% a 74% durante os 50 anos anteriores.
Relações com Washington e Pequim
Nas conversas, Degaut disse se opor a um alinhamento automático aos Estados Unidos e defendeu a preservação dos vínculos econômicos com a China. Ao mesmo tempo, propôs intensificar as relações com Washington por meio de acordos comerciais e iniciativas ligadas a minerais críticos, além de reduzir a dependência de Pequim nas exportações de commodities.
Ele citou os Emirados Árabes Unidos como referência e defendeu o chamado “realismo propositivo”. A orientação também daria prioridade a um Ocidente político, com foco nos países do G20, em Israel e em países latino-americanos governados pela direita.
Disputa interna e escolha do comando
A proposta ocorre em meio à insatisfação no Itamaraty com a lentidão das promoções e a falta de perspectivas de ascensão. Entre 2006 e 2010, quase 535 diplomatas foram admitidos. O número de vagas para promoções e a quantidade limitada de postos, porém, restringem a progressão, e há funcionários há mais de dez anos sem promoção.
Gustavo Buttes, presidente da Associação e Sindicato dos Diplomatas Brasileiros, afirmou que “o principal problema hoje é o imobilismo dentro da carreira”. Segundo ele, os gargalos acumulados afetam a motivação de diferentes gerações.
Degaut disse que algumas funções poderiam ser atribuídas a pessoas de fora do Itamaraty, mas negou a possibilidade de perseguição por motivos políticos. O ministério informou que houve 615 promoções nos quatro anos do governo Bolsonaro e 622 nos quatro anos do atual mandato de Lula. Também afirmou ter adotado medidas para ampliar a diversidade dos quadros e alterado o quadro de acesso às promoções.
A campanha de Flávio Bolsonaro declarou que Degaut e Eduardo Bolsonaro não falam pelo candidato e que não se posicionará sobre planos de política externa. Em uma eventual vitória, Eduardo é considerado um nome forte para influenciar o comando do Itamaraty; uma alternativa seria sua indicação para a Embaixada do Brasil em Washington.
Também são cotados para chefiar o ministério Roberto Azevedo, ex-diretor-geral da OMC, a senadora Tereza Cristina e Marcos Troyjo, ex-presidente do Banco do Brics. Degaut poderia ocupar uma função no Ministério da Defesa ou no próprio Itamaraty. Mudanças mais amplas dependeriam ainda de alterações na Lei do Serviço Exterior, para as quais, segundo interlocutores do ministério, não houve apoio político no Congresso.







