BRASÍLIA — Delegados da Polícia Federal que investigavam o Banco Master discutiram, em março deste ano, a produção de um relatório sobre os diálogos entre Daniel Vorcaro, dono do banco, e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. A iniciativa não avançou naquele momento após a intervenção de superiores hierárquicos da corporação.
Os investigadores ainda não haviam cruzado os metadados e os horários das anotações encontradas no celular de Vorcaro com o envio de mensagens pelo WhatsApp. Por isso, não tinham segurança sobre a identidade do interlocutor nas conversas relacionadas a um plano de fuga do Brasil.
Após a divulgação de indícios sobre mensagens de visualização única enviadas por Vorcaro a Moraes no dia em que o banqueiro seria preso, a Diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado e à Corrupção convocou a equipe para uma reunião no dia seguinte. A chefia informou que havia uma pressão externa muito forte, mas não detalhou sua origem.
Relato a André Mendonça
Um dos temores dos delegados e agentes era se tornar alvo do inquérito das Fake News, relatado por Moraes. Na reunião, a direção da PF mencionou que a Procuradoria-Geral da República havia arquivado um pedido de investigação sobre o contrato de R$ 131 milhões entre o Banco Master e o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro. Para a direção, esse arquivamento retiraria a justificativa para a elaboração de um relatório sobre as conversas.
Os investigadores relataram o episódio ao então novo relator do caso, André Mendonça, e informaram ter recebido pressões relacionadas ao vazamento das conversas. Mendonça afirmou que não permitiria interferências no trabalho da investigação e procurou tranquilizar a equipe para que os inquéritos prosseguissem.
Depois disso, os próprios investigadores decidiram enviar ao gabinete do ministro uma cópia de segurança da extração de dados do celular de Vorcaro. O material foi encaminhado lacrado, e Mendonça afirmou posteriormente, em despacho, que nunca havia aberto o conteúdo.
Relatório produzido em agosto
O documento sobre Moraes só foi produzido no final de agosto, depois que Mendonça determinou à PF a identificação dos interlocutores com quem Vorcaro conversou sobre o plano de fuga do Brasil e sobre uma tentativa de barrar as investigações. Os detalhes das mensagens foram revelados no dia 1º de setembro.
A existência de uma cópia dos dados no gabinete de Mendonça veio à tona durante a disputa no STF em torno do relatório. Alexandre de Moraes, Cristiano Zanin e Gilmar Mendes pediram acesso à extração feita pela PF, argumentando que Mendonça também tinha o material.
Em seu despacho, Mendonça solicitou aos investigadores esclarecimentos sobre as circunstâncias do envio e sobre eventuais pressões sofridas. Na PF, o documento foi interpretado como uma sinalização de que o ministro poderia detalhar o episódio ocorrido com os investigadores.







