BRASÍLIA — Chats extremistas do Telegram registraram aumento de mensagens que defendem uma insurreição violenta contra instituições e autoridades durante o agravamento da crise no Supremo Tribunal Federal (STF). O levantamento do Laboratório de Humanidades Digitais (LABHD), da UFBA, identificou 419 mensagens do tipo entre segunda e sexta-feira da semana passada, na proximidade do julgamento sobre o envolvimento do ministro Alexandre de Moraes com o banqueiro Daniel Vorcaro.
Os usuários passaram a empregar “Nepal” e “nepalizar” como referência aos protestos ocorridos no país asiático em 2025, quando manifestações derrubaram o governo e deixaram prédios públicos em chamas e mortos pelas ruas. Também foram encontradas imagens geradas por inteligência artificial que mostram o Congresso, o Palácio do Planalto e o STF em chamas.
Como o termo é usado
O relatório do LABHD afirma que “nepalizar” funciona como uma forma de legitimar a violência política. De acordo com os pesquisadores, o termo estabelece uma comparação com o Nepal, apresenta a revolta como modelo de ação no Brasil e é usado para medir o grau de adesão à violência contra a Corte.
Dois grupos — um militar e outro voltado à mobilização jovem — aparecem como núcleos geradores das mensagens. O conteúdo é depois distribuído em 18 outros grupos, em um processo descrito pelos pesquisadores como amplificação coordenada.
A análise reuniu 109 mensagens em três temas: violência direta, ameaça pessoal a ministro e violência institucional. Desse total, 35 associavam “Nepal” a verbos como matar, fuzilar, enforcar, linchar, degolar, executar, atirar e tacar fogo. Outras 40 citavam especificamente Alexandre de Moraes.
Dez mensagens convocavam ações contra o casamento do filho do ministro. Para o LABHD, esse foi o conteúdo mais grave identificado, por apontar um alvo específico, a localização do casamento, uma ação e um pedido de compartilhamento.
Disputa interna nos grupos
O levantamento também encontrou mensagens contrárias à adoção do termo e preocupadas com uma possível revolta. Uma delas alertava para o risco de “outro 8 de Janeiro”. Segundo os pesquisadores, a presença desses contrapontos indica que a radicalização é alvo de disputa interna e não representa consenso unânime nos grupos.
Leonardo Nascimento, coordenador do LABHD, afirmou que grupos organizados ensaiam mobilizações desde 2022, sobretudo durante o período eleitoral e em datas cívicas como o 7 de Setembro. O STF, segundo ele, costuma estar entre os principais alvos.
Nascimento ressaltou que a circulação de ameaças, planos e convocações não significa necessariamente que as ações serão realizadas. Para ele, a diferença entre o planejamento, a mobilização discursiva e a ação efetiva ajuda a compreender o chamado “elemento surpresa” dos acontecimentos de 8 de janeiro de 2023.
O coordenador acrescentou que a ausência de ação no momento esperado não demonstrou, necessariamente, a desarticulação das redes mobilizadas nem o abandono de suas pautas e capacidades de coordenação.







