PRESIDENTE VENCESLAU — A Justiça recebeu a denúncia contra o advogado Marcos Roberto Cebola e Silva por coação no curso do processo, após uma fala dirigida ao juiz Deyvison Heberth dos Reis durante uma audiência ligada a réus do Primeiro Comando da Capital (PCC). O advogado afirmou que temia que o magistrado não chegasse ao Elísio caso não revogasse as prisões preventivas.
A expressão, associada na mitologia grega ao destino das almas depois da morte, foi entendida pelo juiz como uma ameaça velada. Cebola nega ter ameaçado o magistrado. Ele disse que sua declaração se referia ao destino espiritual das pessoas, entre paraíso e inferno, e que “todo mundo vai morrer um dia”.
O episódio ocorreu em outubro de 2025, durante uma audiência de instrução da Operação Scream Fake. Cebola defendia Kethelen Camila Souza Lemos e contestava a manutenção das prisões preventivas. A ré foi detida ao tentar entrar em uma penitenciária com quatro cartões de memória ocultos na barra da calça. Conforme a investigação, os dispositivos reuniam dados sobre a contabilidade e a estrutura de áreas estratégicas do PCC.
Antes de falar diretamente com o juiz, o advogado mencionou o ex-delegado Ruy Ferraz Fontes, morto a tiros de fuzil meses antes em Praia Grande, no litoral paulista. Ao questionar o delegado Edmar Rogério Dias Caparroz, Cebola sustentou que o flagrante havia sido “forjado” e citou uma declaração atribuída a Ruy sobre uma suposta “ética” no mundo do crime.
A denúncia afirma que a referência ganhou importância porque Ruy havia sido assassinado pouco antes em uma execução ligada ao PCC, organização investigada no processo. O homicídio não integra, porém, a ação penal em julgamento.
Medidas impostas pela Justiça
No fim da audiência, Cebola defendeu que seria mais simples revogar as prisões preventivas. Em seguida, mencionou a graça e a proteção de Deus e disse ao juiz: “Se o senhor não revogar essas prisões, eu temo o senhor não adentrar ao Elísio”. Questionado sobre o sentido da frase, respondeu que Elísio significava paraíso.
Deyvison Heberth afirmou que, em quase 20 anos de carreira, nunca havia ouvido formulação semelhante. Para o magistrado, a fala sugeria que ele poderia morrer se não soltasse os acusados.
O caso foi investigado pela Polícia Civil, com participação do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco). O juiz Gabriel Medeiros, da 1ª Vara de Presidente Venceslau, recebeu a denúncia apresentada contra Cebola, que passou a responder formalmente a uma ação penal.
A Justiça também determinou cautelares para proteger a atuação funcional de Deyvison Heberth dos Reis e assegurar o andamento do processo. O advogado não pode contatar o juiz por telefone, mensagens, aplicativos, e-mail, redes sociais ou por intermédio de terceiros. A proibição não alcança os canais oficiais do processo nem atos judiciais que exijam a presença de ambos.
Cebola ainda deve manter distância mínima de 200 metros do magistrado fora dessas situações e não pode usar redes sociais ou outros meios eletrônicos para fazer referências intimidatórias, ameaçadoras ou constrangedoras ao caso. Na época, o Tribunal de Justiça de São Paulo informou que acionaria a OAB-SP para apurar a conduta.







