PARIS — O papa Leão 14 se reunirá em Lourdes com sete vítimas de abuso cometido por integrantes do clero católico durante sua visita à França. O encontro, previsto para domingo (27), foi organizado como um diálogo e deverá reunir pessoas de diferentes regiões e com experiências distintas, incluindo vítimas que sofreram abusos na idade adulta.
A viagem ocorre após um relatório de 2021 que apontou que aproximadamente 330 mil crianças francesas sofreram abusos praticados por membros do clero e por líderes leigos ao longo de sete décadas. O documento afirmou que a Igreja demonstrou “indiferença profunda, total e até cruel” diante das vítimas. Bispos franceses adotaram medidas de indenização e proteção, mas sobreviventes continuam cobrando responsabilidade dos dirigentes da instituição.
O bispo francês aposentado Marc Stenger afirmou que os escândalos afetaram a Igreja e sua credibilidade. O santuário de Lourdes também está relacionado às acusações contra o padre e artista Marko Rupnik, acusado por mais de 20 mulheres. Ele não se manifestou publicamente sobre as denúncias e passa por um julgamento canônico no Vaticano. O bispo de Lourdes, Jean-Marc Micas, disse que determinou a cobertura dos mosaicos de Rupnik durante a visita papal.
Direito à vida e inteligência artificial
Em Paris, diante do presidente Emmanuel Macron e de outros políticos, Leão 14 reafirmou a oposição da Igreja Católica à morte assistida e à gestação por substituição. Para o pontífice, essas práticas representam desvios da ciência quando não são guiadas pela consciência.
A França criou, dois meses antes da visita, um direito legal à morte para pessoas com doenças incuráveis. Leão 14 não citou diretamente a nova lei, que enfrentou oposição dos bispos católicos locais. “Reitero firmemente que a proteção do direito à vida constitui a base indispensável de todos os outros direitos humanos”, afirmou.
O papa também voltou a tratar dos riscos associados à inteligência artificial. Em maio, havia divulgado um manifesto sobre os perigos da tecnologia e defendido uma regulamentação internacional para o setor. Em Paris, disse que é urgente formar pessoas capazes de avaliar eticamente o uso da ciência e da tecnologia, diante do risco de a humanidade perder espaço em uma sociedade condicionada pelas máquinas.
Compromissos em três cidades
Leão 14 chegou à França nesta sexta-feira (25), na primeira visita oficial de um pontífice ao país em quase 20 anos. A agenda inclui compromissos em Paris, Lourdes e Metz, além de uma missa ao ar livre em Paris, que recebeu cerca de 600 mil inscrições.
Na capital francesa, o pontífice visita a sede da Unesco, órgão das Nações Unidas para a cultura e a educação, e conduz uma cerimônia de oração na Catedral de Notre-Dame, restaurada após o incêndio de 2019. Também estão previstos encontros com jovens, migrantes, exilados e integrantes da Igreja.
Em Metz, próxima à fronteira com a Alemanha, Leão 14 fará um discurso sobre as raízes da Europa para a paz e a unidade. A cidade foi o lar de Robert Schuman, um dos fundadores da União Europeia. O cardeal Jean-Claude Hollerich afirmou que o papa deverá pedir aos líderes europeus que atuem como construtores da paz.







