A vitória da Alternativa para a Alemanha (AfD) na Saxônia-Anhalt recolocou em debate a capacidade de identificar riscos à democracia antes que eles se transformem em uma ruptura institucional aberta.
A questão é apresentada a partir de uma referência ao filme O Ovo da Serpente, de Ingmar Bergman, lançado em 1977. A história acompanha um trapezista judeu em Berlim de 1923, durante um período de hiperinflação e de enfraquecimento das relações sociais.
Na obra, experimentos médicos clandestinos convivem com uma violência organizada sob aparência científica. O nazismo ainda não havia assumido o poder, mas o filme retrata a disseminação de elementos associados a ele, como antissemitismo, autoritarismo, desumanização, culto à violência e exploração do medo coletivo.
A narrativa também aborda condições que podem favorecer o avanço do totalitarismo: perda de credibilidade das instituições, pobreza, redução da solidariedade e procura por inimigos capazes de explicar uma realidade incompreendida.
O limite da ameaça
A metáfora do filme serve para formular um problema jurídico e político: como separar indícios iniciais de autoritarismo da demonstração de que um movimento já reúne capacidade concreta para ameaçar a democracia?
A reflexão parte da ideia de que ditaduras não aparecem necessariamente de forma imediata. Antes de uma ruptura institucional explícita, podem surgir sinais associados à banalização da violência e à busca de adversários identificáveis. A vitória da AfD na Saxônia-Anhalt tornou essa distinção novamente relevante no debate alemão.







