São Paulo, Segunda-feira, 21 de setembro de 2026
Economia

PF aponta corretora na avenida Paulista em esquema de lavagem ligado ao tráfico

Investigação atribui à Marmaris a entrada no Brasil de recursos do tráfico internacional por meio do sistema clandestino dólar-cabo.

PF aponta corretora na avenida Paulista em esquema de lavagem ligado ao tráfico

A Polícia Federal aponta a Marmaris Corretora de Câmbio, instalada em uma galeria na avenida Paulista, como parte de um esquema de lavagem de dinheiro atribuído ao PCC (Primeiro Comando da Capital) e ligado ao tráfico internacional de drogas.

Segundo a investigação, a empresa teria recebido no Brasil valores enviados do exterior por meio do sistema dólar-cabo, mecanismo clandestino de compensação financeira que não passa pelo sistema bancário oficial. Nesse modelo, recursos são entregues em um país e o equivalente é disponibilizado em outro, com acertos posteriores por vias não legítimas.

Investigação sobre a corretora

A PF atribui ao proprietário da Marmaris, Marcos Alexandre Agustoni, participação relevante na movimentação financeira do grupo. O nome dele apareceu após a quebra do sigilo de um dos investigados. A corporação afirma ter encontrado mensagens sobre uma remessa de US$ 1,7 milhão (R$ 8,67 milhões, na cotação atual) destinada a ser recebida em Roterdã, na Holanda. Também identificou conversas de Agustoni com pessoas investigadas por rotas internacionais do tráfico.

Em buscas na casa de câmbio, os agentes apreenderam R$ 120,5 mil, US$ 25,9 mil (R$ 132 mil) e 2.625 euros (R$ 15,5 mil), além de computadores e celulares. A PF afirma ainda que a segurança do estabelecimento era feita por agentes expulsos da Rota, tropa de elite da Polícia Militar de São Paulo, mas não identificou os nomes desses agentes.

A defesa de Agustoni, representada pelo advogado Airton Jacob Gonçalves Filho, informou que se manifestaria, mas não respondeu. Em juízo, os advogados sustentam que o empresário “não tem qualquer ligação com o tráfico de entorpecentes” e que os fatos atribuídos a ele se restringem a relações financeiras. O processo aguarda julgamento.

A apuração começou em 2021, em João Pessoa, após a prisão de dois italianos acusados de integrar a ‘Ndrangheta. Extraditados a pedido da Itália, eles prestaram informações à PF. Um deles, Vincenzo Pasquino, afirmou conhecer a ligação entre Agustoni e outros investigados.

A Justiça determinou a prisão do empresário em 2024, durante a operação, mas ele deixou o prédio antes da chegada dos agentes. De acordo com a PF, funcionários do condomínio não informaram o número do apartamento e só permitiram a entrada após a chegada da Polícia Militar. Agustoni permaneceu foragido por oito meses e foi detido em agosto do ano passado. Em março deste ano, foi solto sob medidas cautelares: usa tornozeleira, não pode sair da comarca sem autorização e deve cumprir horário para retornar à residência.

A denúncia apresentada no ano passado acusa Agustoni e outras nove pessoas de organização criminosa e associação para o tráfico. O processo está em fase inicial. O Ministério Público Federal também investiga, em procedimento separado, a suspeita de lavagem de dinheiro.

Em julho deste ano, a Secretaria de Administração Penitenciária de São Paulo enviou ao TRF-5 (Tribunal Regional Federal da 5ª Região) um relatório sobre possível violação das regras da tornozeleira. Os advogados afirmaram que Agustoni havia ido buscar as filhas na escola. A Justiça ainda não decidiu sobre o episódio.

Outros casos investigados

A PF afirma que o tráfico partia inicialmente do porto de Santos e depois passou a usar terminais do Nordeste, em meio ao aumento da fiscalização no principal porto da América Latina. A investigação também aponta a adoção de novas medidas de segurança nos terminais e o recrutamento de mergulhadores pelos grupos criminosos.

Em Santa Catarina, um inquérito aberto pela PF no ano passado investiga organização ligada ao PGC (Primeiro Grupo Catarinense), aliado do Comando Vermelho e rival do PCC. O esquema seria liderado por Ângelo Scotti Júnior, conhecido como Cabelo, preso em maio deste ano. A defesa afirmou que não teve acesso à íntegra dos autos e que se manifestará depois de conhecer os elementos da acusação.

Segundo a investigação, as vendas na Europa envolviam pagamentos divididos em parcelas em euro e o envio dos recursos ao Brasil por criptomoedas. Os repasses eram coordenados pelo empresário Maycon Marcos, dono da Smart Business, financeira que prometia retornos de 3% a 5% ao mês. Para a PF, os percentuais superavam os praticados pelo mercado. A defesa de Marcos afirmou que ainda não teve acesso aos autos.

Mensagens interceptadas, segundo a corporação, mostram Maycon tratando Ângelo como “um cliente diferenciado” e perguntando em nome de quem os investimentos seriam registrados. A polícia interpreta o procedimento como uma forma de esconder o verdadeiro titular dos recursos.

Para Leandro Sarcedo, professor da USP e doutor em direito penal pela instituição, casas de câmbio podem cumprir uma função logística em operações desse tipo. “Você não consegue pôr esse dinheiro no banco. Tem de haver gente por trás para dar lastro à movimentação desse tipo de recurso”, afirmou. Na avaliação dele, investigações sobre tráfico internacional costumam alcançar também suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e ocultação de patrimônio.

Texto produzido pela Redação Mapa do Mercado com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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