SÃO PAULO — A informalidade alcançou 37,5% da mão de obra no trimestre encerrado em julho, enquanto cerca de 2 milhões de brasileiros tinham, em 2025, o trabalho por aplicativos como atividade principal ou secundária. Os dados mostram que a melhora dos indicadores de emprego convive com mudanças nas relações de trabalho e dificuldades de proteção social.
A taxa de desemprego ficou em 5,3% no trimestre terminado em julho, o menor nível para esse período desde o início da série histórica, em 2012. No mesmo intervalo de 2022, o índice era de 9,1%. O nível de ocupação chegou a 58,9% em 2026, e o número de empregados com carteira assinada no setor privado atingiu 39,4 milhões, maior marca da série.
Avanço dos indicadores, limites da proteção
Para Janaína Feijó, economista do FGV Ibre, a evolução quantitativa ocorre ao mesmo tempo que problemas qualitativos, em um ambiente de desaceleração econômica e juros altos. “O mercado está desacelerando”, afirmou. Na avaliação dela, a política macrofiscal será decisiva para evitar a perda dos ganhos recentes.
A economista também considera que a reforma trabalhista de 2017 não contemplou adequadamente o trabalho em plataformas. Ela diferencia a situação de entregadores e motoristas de aplicativos e afirma que parte desses profissionais permanece sem proteção. O motoboy Felipe Zuppo, 38, deixou um emprego com carteira para trabalhar por aplicativos e participou, em 2023, de um grupo do governo Lula (PT) que não chegou a um acordo sobre a regulamentação da atividade.
Zuppo disse que esperava uma atuação mais rígida do governo e criticou a ausência de direitos trabalhistas para os profissionais do setor. Para ele, os trabalhadores não querem necessariamente ser enquadrados pela CLT, mas também não aceitam uma legislação aprovada sem garantias.
A informalidade já superou 40% em algum momento da série histórica. Entre os trabalhadores que usavam aplicativos na atividade principal, a flexibilidade foi o motivo mais citado, com 26,8%. A falta de outro emprego respondeu por 24,6%, enquanto a expectativa de rendimento superior ao de outras ocupações ficou em 20,8%.
Formação, renda e Previdência
Janaína Feijó também apontou problemas no modelo do MEI, criado para formalizar pequenos negócios e incluir trabalhadores no INSS. Segundo ela, o regime pode receber pessoas que não são contratadas pela CLT com contribuição equivalente a 5% do salário mínimo, o que representaria uma pressão fiscal.
Outro obstáculo é a distância entre a formação dos trabalhadores e as necessidades das empresas. A economista afirmou que a qualificação não pode ser pensada apenas a partir da demanda empresarial e destacou que as redes de relacionamento favorecem alguns grupos. Ela também citou a desigualdade de acesso a esse tipo de contato.
Nicole Guedes de Andrade Suvires, 22, trabalha como atendente em uma rede de pet shop no ABC paulista, embora procurasse uma vaga relacionada à sua formação. Ela passou dois anos como PJ e disse ter valorizado a flexibilidade do modelo. Atualmente, trabalha em escala 6×1 e tem benefícios.
Rodolpho Sartori, economista da Buysidebrazil, avalia que o mercado brasileiro se tornou mais resistente a choques. Entre as possíveis explicações, cita a flexibilização associada à reforma trabalhista de 2017 e a expansão de ocupações ligadas a aplicativos. Na visão dele, contudo, permanece o desafio de absorver profissionais mais qualificados. “É aquela história do engenheiro que virou motorista de Uber. É um meme, mas é verdade”, disse.
A longevidade acelerada e os efeitos da inteligência artificial sobre vagas de entrada também aparecem entre os desafios mencionados por especialistas, ao lado da pejotização e do descompasso entre educação e emprego.
Propostas dos candidatos
Os planos apresentados para 2026 têm abordagens diferentes. Lula (PT) propõe reforçar a proteção dos trabalhadores, preservar a política de valorização do salário mínimo e enfrentar a pejotização. Também defende regras para as plataformas que incluam remuneração, direitos, transparência nos algoritmos e cobertura previdenciária. Entre suas propostas estão o fim da escala 6×1, a jornada de 40 horas sem redução salarial, a requalificação profissional e mudanças no financiamento da Previdência.
Flávio Bolsonaro (PL) propõe reduzir gradualmente o custo do trabalho, dar prioridade a beneficiários do Bolsa Família em programas de emprego e qualificação e criar contratos mais baratos para jovens de 18 a 24 anos e desempregados com 50 anos ou mais.
Romeu Zema (Novo) defende um regime alternativo à CLT, com negociação de jornada, remuneração e férias, além de menos encargos. A proposta prevê jornada diária acima de oito horas e limite semanal de 44 horas.
Ronaldo Caiado (PSD) prioriza ensino técnico e requalificação, com currículos voltados a inteligência artificial, automação, dados e cibersegurança. Augusto Cury (Avante) propõe o empreendedorismo como resposta ao desemprego associado à inteligência artificial e quer transformar o Bolsa Família em porta de entrada no mercado. Renan Santos (Missão) não apresentou propostas específicas para o trabalho, mas defende liberdade para o crescimento dos negócios.







