O longa-metragem Virtuosas usa o terror para abordar a submissão feminina, o negacionismo e o universo das mulheres ultraconservadoras. Dirigido por Cíntia Domit Bittar e protagonizado por Maria Galant, o filme acompanha Germina em um retiro marcado por crenças, máscaras sociais e contradições.
A diretora afirma que a ideia inicial nasceu do interesse por grupos unidos por crenças comuns e da preocupação com pessoas que rejeitam fatos evidentes. O roteiro foi escrito por Cíntia e Fernanda de Cápua, depois de um trabalho de preparação dedicado a cada personagem. Foram definidos seus desejos, limitações, objetivos e relações com as demais integrantes do grupo.
Para Cíntia, o terror permitiu reunir humor ácido, suspense, absurdo e tragédia em uma mesma história. A pesquisa incluiu palestras, cursos, videoaulas e manuais voltados à chamada mulher virtuosa. Segundo ela, algumas falas do roteiro são próximas de transcrições desses encontros.
Pesquisa e realidade
Entre as referências cinematográficas está The Stepford Wives, produção estadunidense que também ganhou uma versão chamada Mulheres Perfeitas no Brasil. A principal base do filme, porém, veio da observação de discursos e comportamentos presentes na realidade.
Cíntia diz que o material pesquisado reunia valores sobre feminilidade, além de ideias que classificou como perigosas, como o negacionismo em relação às vacinas, o racismo, a misoginia e a defesa de que mulheres não devem votar. Para a diretora, o filme também procura colocar em discussão um universo que recebeu pouca atenção.
Maria Galant afirma que se identificou com Germina por reconhecer nela e no ambiente retratado elementos do contexto brasileiro. A atriz diz que a personagem percebe o que acontece ao seu redor, mas não considera os sinais absurdos a ponto de imaginar que aquilo poderia se concretizar.
A preparação incluiu a criação de códigos para a personagem e a consulta a filmes de referência. Maria buscou fazer de Germina uma figura capaz de despertar identificação e estranhamento. A personagem deveria parecer deslocada naquele ambiente, sem deixar de ser reconhecida como humana.
Para a atriz, todas as mulheres do filme usam uma máscara social e poderiam conduzir histórias diferentes, ainda que os acontecimentos fossem os mesmos. Germina entra no retiro com uma segunda intenção, mas também compartilha com as outras personagens o desejo de buscar uma versão considerada melhor de si mesma.
Um filme atual
As duas entrevistadas destacam a proximidade entre a ficção e o momento em que o longa chega aos cinemas. Cíntia afirma que teme que parte do público interprete a história apenas como sátira ou caricatura. Ela também relaciona essa preocupação ao retrocesso em debates sobre as mulheres.
Maria aponta a questão antivacina como um dos elementos que tornam o filme atual. Para ela, Virtuosas não apresenta apenas um futuro possível ou uma hipótese distante: a realidade retratada já está presente no momento da estreia.
A diretora convida o público a assistir ao filme a partir de quinta-feira, dia 24. Ela afirma que a procura nos primeiros dias pode influenciar a ampliação do número de salas. A produção é independente, brasileira, catarinense e realizada por uma empresa formada por mulheres.
Maria também ressalta a importância da primeira semana em cartaz. Segundo a atriz, o filme tem a primeira semana garantida, mas a permanência posterior depende da resposta do público. Para ela, a obra propõe uma reflexão sobre o país que se deseja construir e sobre quem deve receber poder.







