A DeepSeek encomendou 160.000 chips Huawei Ascend 950DT para um data center de 1 GW em construção na Mongólia Interior, na China. O pedido, confirmado no início de setembro, pode representar cerca de US$ 2,56 bilhões, considerando o preço aproximado de 111.000 yuans, ou US$ 16.000, por unidade.
Esse será o maior cluster de chips da Huawei conhecido até o momento, superando estruturas construídas anteriormente na China. A escala também marca uma mudança na estratégia da DeepSeek, que pretende usar os processadores chineses para inferência — etapa responsável por atender aos usuários — e não para treinar grandes modelos de inteligência artificial.
Desempenho e restrições
Luong Van Phong afirmou em julho que um chip NVIDIA GB300 equivale a quatro chips Huawei em poder de processamento. Segundo ele, a combinação de vários processadores da Huawei em um supercluster pode alcançar velocidade e latência equivalentes às da NVIDIA. “Tudo o que o GB300 consegue fazer, o cluster de chips da Huawei também consegue, com a mesma latência”, disse.
A decisão da DeepSeek não decorre apenas de uma comparação técnica. A empresa queria comprar chips NVIDIA H20, desenvolvidos para o mercado chinês com desempenho reduzido, mas enfrentou obstáculos relacionados aos controles de exportação dos Estados Unidos e às políticas de Pequim.
O governo chinês incentiva empresas nacionais de inteligência artificial a adotar chips produzidos internamente. A DeepSeek chegou a pedir intervenção oficial para que a Huawei priorizasse a entrega dos processadores. A fabricante, porém, precisa atender vários clientes, e sua capacidade atual de produção do 950DT é de apenas algumas centenas de milhares de unidades por ano. Com o pedido da DeepSeek, o prazo pode superar um ano.
A escassez de memória de alta largura de banda também limita a produção. Esse componente é considerado essencial para chips de inteligência artificial e representa um gargalo para o setor.
Inferência com Huawei, treinamento com NVIDIA
Modelos anteriores da DeepSeek foram treinados em chips da Huawei, mas enfrentaram obstáculos técnicos e acabaram usando processadores da NVIDIA nessa etapa. O treinamento de grandes modelos exige computação complexa e sincronizada, área em que os chips da Huawei continuam apresentando limitações.
A adoção do 950DT para inferência ainda tem peso estratégico, porque essa fase atende milhões de usuários reais. A iniciativa amplia o uso de chips nacionais mesmo com as restrições de capacidade e de prazo.
Steven Glinert, CEO da Sphere Semi, afirmou que a NVIDIA parece ter começado a tratar a China como uma “causa perdida”. Nos últimos seis meses, o maior cluster de chips da Huawei no país passou de 10.000 unidades para a meta de 160.000 chips da DeepSeek em uma única instalação. A Meituan também anunciou o treinamento bem-sucedido de um modelo de inteligência artificial usando 50.000 chips produzidos internamente.
O setor privado chinês, contudo, ainda prefere a NVIDIA. Alibaba e Tencent continuam fazendo grandes encomendas da empresa depois que os Estados Unidos flexibilizaram algumas restrições. Empresas chinesas também alugam capacidade de data centers fora da China, onde os chips da NVIDIA são permitidos.
Os Estados Unidos propuseram permitir a importação de até um milhão de chips H200, mas Pequim aprovou apenas uma pequena fração desse volume. A NVIDIA, assim, enfrenta restrições dos dois lados: os controles de exportação americanos e a política chinesa de autonomia tecnológica. A empresa afirma que a transição para chips nacionais é consequência dos controles impostos por Washington desde 2022.








