São Paulo, Quinta-feira, 1 de outubro de 2026
Política

Planilhas do WiFi Livre têm erros de localização e registros futuros

Documentos validados pela Prefeitura de São Paulo indicam pontos fora da capital, CEPs incompatíveis e datas de instalação posteriores.

Prefeitura de SP aprovou planilha de ONG ligada a 'Dark Horse' que indica ponto de Wi-Fi em praia carioca

Planilhas de prestação de contas do programa WiFi Livre, administrado pelo Instituto Conhecer Brasil (ICB), apresentam endereços incompatíveis, coordenadas que apontam para outros municípios e datas de instalação posteriores ao registro de funcionamento dos equipamentos. Os documentos foram validados pela Prefeitura de São Paulo, que supervisiona o programa por meio da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (SMIT).

O ICB recebeu mais de R$ 100 milhões para executar o serviço. A entidade é comandada por Karina Ferreira da Gama, proprietária da produtora responsável pelo filme “Dark Horse”, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. O contrato foi assinado em junho de 2024, durante a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB).

As inconsistências dificultam verificar onde os equipamentos foram instalados, quando começaram a operar e qual é a cobertura efetiva dos pontos de internet, previstos para ampliar o acesso em regiões da periferia da capital. Também comprometem o acompanhamento da execução e do uso dos recursos públicos com base nos documentos apresentados pelo instituto.

Divergências nas bases

Uma planilha enviada pelo ICB à prefeitura em 19 de janeiro de 2025 listava 2.673 pontos instalados entre agosto de 2024 e janeiro de 2025. Outra, com 2.929 registros, foi apreendida em 10 de junho de 2026 durante uma operação na SMIT. As duas bases têm 2.673 pontos em comum, além de outros 256 registros na segunda versão.

Embora os equipamentos coincidentes sejam os mesmos, as datas de instalação foram alteradas para 2026. Um ponto da rua Emílio Castro, no Jardim Damasceno, aparece na primeira planilha como instalado em dezembro de 2024 e com o link ativo. Na segunda, a instalação é indicada para dezembro de 2026, embora o equipamento continue registrado como ligado.

As bases também trazem 37 pontos cujas coordenadas ficam fora de São Paulo, apesar de os endereços indicarem locais na capital. Em um caso, um equipamento da rua Angelo Bini, em Itaquera, tem coordenadas que o posicionam na Ilha de Paquetá, no município do Rio de Janeiro. Outro registro, no Itaim Paulista, leva a Jundiaí; um ponto associado à rua Travessa Barão Ferraz Uruquaiana tem coordenadas em Sorocaba.

Há ainda 17 pontos com problemas nos CEPs. Desses, 16 usam códigos de outras cidades: 15 de Ferraz de Vasconcelos e um de Cotia. Um equipamento de Cidade Tiradentes aparece com o CEP 00941-465, que não corresponde a um código postal válido no país.

Fiscalização e investigações

Depois do envio da primeira planilha, a prefeitura prorrogou o contrato duas vezes, elevando o valor total para mais de R$ 157 milhões. O primeiro aditamento ocorreu em junho de 2025 e o segundo, em janeiro de 2026. Em 16 de dezembro do ano passado, a SMIT recomendou a extensão por mais 12 meses e declarou que a execução apresentava conformidade com os indicadores previstos.

Não há, nos processos administrativos analisados, registro de uma verificação técnica da qualidade das instalações ou de questionamentos da prefeitura sobre as inconsistências da prestação de contas.

A SMIT afirmou que os pontos são fiscalizados desde a instalação por monitoramento técnico e georreferenciado e que a execução foi comprovada por documentos e fotografias. A secretaria também declarou que eventuais inconsistências cadastrais são comunicadas à instituição responsável. Em resposta posterior, sustentou que “tais inconsistências pontuais não comprometem em nada a lisura e a correição da fiscalização do Termo de Colaboração”.

O ICB disse que as planilhas correspondem a momentos diferentes de atualização da base operacional e que a versão mais recente deve ser usada no acompanhamento. A entidade também afirmou utilizar o georreferenciamento para monitorar os pontos.

O contrato é alvo de investigações da Polícia Federal e da Polícia Civil de São Paulo. Em relatório que embasou uma operação determinada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Flávio Dino em 10 de setembro, a Polícia Federal apontou indícios de uma triangulação financeira de ao menos R$ 6,1 milhões entre empresas e entidades ligadas a Karina da Gama. A Polícia Civil afirmou ter identificado “consistentes suspeitas” de desvio de recursos do WiFi Livre para financiar a produção de “Dark Horse”.

Texto produzido pela Redação Mapa do Mercado com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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