SÃO PAULO — A Polícia Federal deflagrou a Operação Eredità contra uma rede associada à ’Ndrangheta, máfia da Calábria, a integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV). As investigações apontam o envio de 6 toneladas de cocaína à Europa, em 20 carregamentos, e movimentação de R$ 4,8 bilhões.
O doleiro Tharek Murad Mourad, conhecido como Primo, foi apontado como principal operador financeiro do grupo. Preso desde março de 2025, ele recebeu na Penitenciária 1 de Presidente Venceslau a notícia de que a Justiça Federal havia decretado novamente sua prisão preventiva.
A ação contou com a participação de policiais italianos que chegaram ao Brasil no dia 14. A equipe reunia três integrantes do Raggruppamento Operativo Speciale (ROS), um representante da Direção Nacional Antimafia e outro da Europol.
Acusações contra o doleiro
Segundo a PF, Tharek teria atuado na exportação de cocaína e na movimentação de recursos em países como Bolívia e Peru. O delegado Eduardo Verza, do Grupo Especial de Investigações Sensíveis (Gise), em Curitiba, classificou-o como “um dos maiores” doleiros do crime organizado transnacional em atividade.
A defesa não se manifestou. Em depoimentos, Tharek nega saber que o dinheiro movimentado teria origem no tráfico de drogas. Ele foi delatado pelo mafioso italiano Vincenzo Pasquino, preso no Brasil em 2021, extraditado para a Itália em março de 2024 e posteriormente colaborador da Justiça italiana.
Os depoimentos de Pasquino também foram usados nas Operações Mafiusi e Conexão Paraíba, da PF, e na Operazione Samba, conduzida pelo ROS e pela procuradoria antimáfia de Turim. Conforme as investigações, Tharek seguia ordens de Nicola Assisi, conhecido como Fantasma da Calábria, de seu filho Patrick Assisi e, depois da prisão dos dois, de Paula Simões Assisi, mulher de Patrick.
A PF afirma que o doleiro administrava uma estrutura paralela para guardar e transferir recursos. Entre os valores atribuídos aos mafiosos estavam US$ 3 milhões, que Paula poderia usar no envio de cocaína para a Europa. A juíza italiana Francesca Rossetti escreveu que Tharek “gerenciava e guardava a conta de toda a família Assisi”.
Paula morava em um condomínio em Itupeva. O imóvel, comprado por R$ 1,65 milhão, foi registrado em nome de Magali Simões Bezerra da Cruz, acusada na Itália de atuar como laranja da máfia. Parte dos recursos também teria sido aplicada em uma construtora no Tatuapé, na zona leste de São Paulo.
Remessas e conexões no Brasil
Uma das acusações envolve o envio de 63 quilos de cocaína ao Porto de Gioia Tauro, na Calábria. A maioria dos carregamentos teria saído do porto de Paranaguá, sob ordens de Paula e de Nicola De Carne, conhecido como Alvin. Os dois seriam responsáveis pela compra da droga do PCC destinada à Itália.
Em uma operação, Tharek teria disponibilizado US$ 1,47 milhão para o pagamento de uma remessa de 300 quilos de cocaína. Ele recebia comissões de 2% a 14,5% sobre as transferências e utilizava tokens — cédulas identificadas pelo número de série — para permitir o resgate de valores em diferentes países.
A PF também identificou conversas entre Tharek e Willian Barile Agati, chamado de Concierge do PCC. As mensagens tratavam da compra de imóveis, incluindo uma casa em Florianópolis por R$ 5,1 milhões e uma chácara em Indaiatuba por R$ 25 milhões. A dupla ainda planejava um condomínio industrial em Paulínia, com 30 galpões em 14 terrenos.
As investigações citam sociedades em empresas de factoring e administração de imóveis, além de negócios ligados a jogadores de futebol, apostas online, shows e espetáculos. Uma conta chamada Itaim Lighting teria enviado dólares para uma empresa na China em remessas inferiores a R$ 50 mil.
Dados obtidos em aplicativo criptografado
De acordo com a investigação italiana, Tharek teria transferido US$ 6.180.288 para financiar atividades da ’Ndrangheta no Brasil. Os italianos identificaram 13 operações de câmbio, 11 delas superiores a US$ 500 mil. As informações foram recuperadas em servidores do aplicativo Sky ECC, usado para mensagens criptografadas.
A identidade associada ao codinome Primo foi descoberta a partir da delação de Marcos José de Oliveira, preso em Curitiba na Operação Narcobrooker. Ele também citou Agati, cuja defesa nega os crimes.
Os dados atribuídos a Tharek aparecem em 129 pastas, com 118 chats privados e em grupos e 247 conversas. O material inclui diálogos com integrantes do PCC, da ’Ndrangheta e de outros grupos criminosos.
Além do doleiro, a Justiça Federal decretou outras seis prisões. Entre os presos está o advogado Patrick Raasch Cardoso, localizado em Santos. A defesa dele afirma que provará sua inocência. Franklin Rodrigues de Oliveira, o BXX, também foi identificado como suspeito de transportar drogas entre São Paulo e Paranaguá, mas não foi encontrado.







