O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chega à reta final da eleição sem ampliar seu apoio entre os evangélicos. O grupo, que já foi majoritariamente favorável ao PT, hoje mantém ampla preferência pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em simulações de segundo turno.
A diferença entre os candidatos chega a ultrapassar 50 pontos porcentuais em algumas sondagens. Na pesquisa mais recente da Quaest, Lula aparece com 31% dos votos válidos entre os evangélicos, contra 69% de Flávio — resultado semelhante ao registrado em 2018.
Antipetismo e menor mobilização
Pesquisadores avaliam que a vantagem de Flávio não decorre de uma identificação forte com o senador. Luciana Andrade, coordenadora de pesquisas qualitativas da Quaest, afirma que ele não é visto como próximo do meio evangélico e que sua candidatura não desperta entusiasmo entre os fiéis. O apoio estaria ligado à família Bolsonaro e ao desgaste de Lula.
O cientista político Vinicius do Valle, pesquisador do Cebrap, também atribui o desempenho de Flávio principalmente ao antipetismo. Segundo ele, a mobilização eleitoral nas igrejas diminuiu, e perdeu força o discurso de que Lula fecharia igrejas ou adotaria políticas contrárias à família.
“Existe um sentimento antipetista muito forte entre os evangélicos”, afirma Valle.
Para o pesquisador, os embates envolvendo os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça e Alexandre de Moraes ajudaram a mobilizar uma parcela desse eleitorado. Mendonça é declaradamente evangélico. Nas pesquisas qualitativas da Quaest, o STF é descrito por evangélicos como uma instituição “corrupta”, um “partido político” e um “atraso” para o País. Moraes é associado a Lula e enfrenta rejeição nesse segmento.
Mudança no comportamento eleitoral
Em 2002, Lula recebeu 63% dos votos válidos entre os evangélicos no segundo turno contra José Serra (PSDB). A maioria do grupo também apoiou candidatos do PT em 2006, 2010 e 2014, sempre contra concorrentes tucanos.
A mudança ocorreu em 2018, quando Jair Bolsonaro obteve 70% dos votos válidos entre os evangélicos, contra 30% de Fernando Haddad (PT). Em 2022, Bolsonaro voltou a superar Lula nesse eleitorado.
A série histórica foi organizada pela Quaest com dados do Estudo Eleitoral Brasileiro (ESEB), pesquisa pós-eleitoral realizada pelo Centro de Opinião Pública (Cesop/Unicamp), e com levantamento próprio feito neste ano.
A deputada federal e candidata ao Senado pelo Rio de Janeiro Benedita da Silva, uma das principais lideranças evangélicas do PT, atribui a mudança à atuação de líderes religiosos que passaram a ter projetos políticos e partidários. Ela também afirma que foi criada uma “indústria de fake news” para apresentar o PT como inimigo da família e da igreja.
Benedita cita como iniciativas de aproximação do PT com os evangélicos a sanção, por Lula, da lei que instituiu o Dia Nacional da Marcha para Jesus, em 2009, e o Dia Nacional do Evangélico, em 2010.
Estratégias de PT e PL
O PL busca o apoio de pastores de grandes denominações, como Silas Malafaia. A campanha de Lula aposta no diálogo com lideranças regionais, na mobilização territorial e na distribuição de materiais voltados aos evangélicos.
Luís Sabanay, coordenador do Núcleo de Comunicação com Evangélicos da campanha de Lula, disse que os conteúdos abordam temas do cotidiano das famílias, citam realizações do governo, como o programa Pé-de-Meia e a redução do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, além de trazer versículos bíblicos.
A campanha pretende ampliar a distribuição desses materiais e dar visibilidade a evangélicos que apoiam Lula. Sabanay afirmou ainda que não está prevista uma nova carta do presidente ao segmento, como a divulgada em 2022.
A primeira-dama Janja da Silva também participa da estratégia e, desde o ano passado, promove encontros com mulheres evangélicas. Em junho, participou do Encontro Nacional de Evangélicos com o PT. O antropólogo e historiador Juliano Spyer questiona a escolha de Janja como porta-voz, por ela não ser evangélica e por se apresentar como feminista, termo rejeitado em setores das igrejas.
“O patamar nas pesquisas hoje é praticamente o mesmo de 2018”, diz Spyer, que vê falta de coordenação central na interlocução do PT com esse eleitorado.







