SÃO PAULO — Flávio Bolsonaro voltou a abrir espaço entre empresários e investidores da Faria Lima, depois de um período de afastamento provocado por desconfianças sobre sua candidatura. A retomada ocorre enquanto o senador se mantém competitivo nas pesquisas e é tratado como o principal nome da oposição com condições de derrotar Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A aproximação, porém, não representa adesão ao programa econômico. Empresários e interlocutores do mercado consideram genéricas as propostas apresentadas até agora e demonstram preocupação com a possibilidade de instabilidade institucional em um eventual governo. A campanha ainda não apresentou uma medida considerada sólida para ajustar as contas públicas.
O desgaste aumentou após a divulgação de áudios em que Flávio pediu a Daniel Vorcaro, então dono do Banco Master, recursos para financiar o filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro. O episódio alimentou a expectativa de enfraquecimento da candidatura e abriu espaço para nomes como Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante). Antes disso, parte da Faria Lima via Tarcísio de Freitas (Republicanos) como uma alternativa mais competitiva a Lula.
A aposta no recuo de Flávio não se confirmou. No levantamento mais recente do Datafolha, ele e Lula aparecem em empate técnico em um eventual segundo turno. A campanha passou a ampliar a presença de Daniella Marques, responsável pela coordenação econômica, em reuniões com empresários. Investidores que se encontraram com o senador afirmam que ele tem tratado novos questionamentos sobre Dark Horse como “página virada”.
Os sinais de reaproximação ficaram mais claros no fim de agosto, durante um evento na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Flávio foi aplaudido de pé e recebeu convidados interessados em tirar fotos. Empresários que acompanharam o encontro disseram que o senador passou a ser visto como o único nome da oposição com condições reais de derrotar Lula e conduzir uma política econômica mais alinhada ao mercado.
Na Fiesp, Flávio defendeu responsabilidade fiscal, redução de despesas e queda dos juros de longo prazo. Em conversas posteriores, mencionou ajustes nas contas públicas equivalentes a até 2% do Produto Interno Bruto (PIB) e a revisão do arcabouço fiscal. As medidas, contudo, ainda são consideradas insuficientes por interlocutores do mercado.
A receptividade também foi observada em um jantar no apartamento de Marcelo Kayath, ex-presidente do Credit Suisse no Brasil. O senador conversou com José Galló, Fabio Carvalho e Pedro Parente, mas participantes disseram que Daniella Marques concentrou boa parte das explicações sobre as propostas estudadas.
Nos encontros reservados, Flávio tem afirmado que pretende pacificar as relações entre o Supremo Tribunal Federal, o Congresso Nacional e o Executivo. A sinalização busca reduzir o receio de que seu eventual governo volte a tensionar a relação entre os Poderes para tentar anistiar Jair Bolsonaro e os condenados pelos atos de 8 de Janeiro.
Essa abordagem é diferente da comunicação eleitoral conduzida por Duda Lima, que mantém símbolos e bandeiras associados a Jair Bolsonaro, incluindo o confronto com o Judiciário. A campanha pretende intensificar os encontros com empresários até o primeiro turno para ampliar a interlocução e diminuir as resistências à candidatura.







