As concessões das hidrovias dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins devem voltar à agenda do governo somente depois das eleições. A área técnica do Executivo trabalha para concluir os projetos ainda em 2026 e apresentá-los aos primeiros 100 dias do próximo governo, seja para uma nova equipe do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seja para a transição de um eventual novo presidente eleito este ano.
A tentativa de realizar as primeiras concessões hidroviárias do país em 2026 não avançou. A pressão de movimentos sociais, especialmente de povos indígenas, levou ao adiamento da agenda. O governo também vem se reunindo com lideranças contrárias à concessão do serviço de manutenção da navegabilidade, com o objetivo de reduzir as tensões em 2027.
No início de 2026, lideranças indígenas ocuparam a sede da Cargill em protesto contra a agenda. A mobilização contribuiu para a derrubada do decreto que havia incluído as hidrovias do Norte do país em estudos de viabilidade de concessão. Apesar das negociações, a avaliação no Executivo é que o tema poderá avançar mesmo com a necessidade de enfrentar resistências políticas e sociais.
Divergências dentro do governo
Os Ministérios de Portos e Aeroportos e dos Transportes defendem a concessão e articulam a pauta com a Presidência da República. O argumento é que os projetos podem atrair investimentos e contribuir para a descarbonização do transporte de combustíveis e commodities destinadas à região Norte.
Na direção oposta, a Secretaria-Geral da Presidência, comandada pelo ministro Guilherme Boulos, e o Ministério dos Povos Indígenas, liderado por Sônia Guajajara, manifestam resistência oficial. As pastas apontam possíveis impactos sobre os custos para populações ribeirinhas, a fauna, a flora e a cultura dos povos indígenas.
O Ministério do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas adota uma posição mais cautelosa. A pasta não faria oposição ao projeto em si, mas cobra estudos adicionais e evidências de que a iniciativa não provocará impactos ambientais relevantes.
Na Secretaria-Geral da Presidência, a preocupação seria principalmente política, diante da proximidade do calendário eleitoral e do risco de desgaste para o governo e de perda de popularidade de Lula na região. Já o Ministério dos Povos Indígenas concentra sua preocupação no cumprimento da consulta livre, prévia e informada às comunidades potencialmente afetadas. A área técnica favorável às concessões avalia que esse processo pode ampliar os prazos e elevar os custos dos projetos.
Na Casa Civil, prevaleceria uma visão pragmática. Integrantes das tratativas afirmam que a pasta considera riscos políticos e ambientais, mas avalia que eles podem ser mitigados por condicionantes e medidas compensatórias. A recém-criada Secretaria Nacional de Hidrovias e Navegação também vem ampliando a discussão com associações, federações e ministérios considerados estratégicos.
Risco para o transporte no Tapajós
Sem o serviço de dragagem na hidrovia do Tapajós, empresas que transportam cargas na região podem ter de reduzir os volumes carregados a partir da segunda quinzena de outubro ou início de novembro. A recomendação do Executivo, por enquanto, é utilizar as rodovias BR-163 e BR-230 para evitar prejuízos aos produtos transportados.







