A Avibrás poderá ser incorporada ao contrato do Exército para a compra de 36 obuseiros autopropulsados de calibre 155 mm. A proposta apresentada ao Comando Logístico do Exército (Colog) prevê que a empresa faça a montagem dos veículos em Jacareí (SP), em parceria com a Elbit e sua subsidiária brasileira, a AEL Sistemas.
O negócio é estimado em cerca de R$ 800 milhões e está paralisado desde 2024. A compra foi interrompida por razões geopolíticas, após a escolha do sistema Atmos, da empresa israelense Elbit. A decisão ocorreu no contexto das ações do governo de Binyamin Netanyahu contra a população civil de Gaza durante a guerra contra o Hamas.
A inclusão da Avibrás pode representar o primeiro contrato de grande porte da empresa com as Forças Armadas desde a aquisição anunciada pelos irmãos Joesley e Wesley Batista. A companhia estava em recuperação judicial e havia retomado as atividades depois de quatro anos de paralisação.
Como a proposta foi estruturada
O projeto dos obuseiros é analisado pelo Exército desde 2022. A avaliação envolveu o Colog, o Departamento de Ciência e Tecnologia (DCT), o Estado-Maior do Exército (EME) e o Escritório de Projetos do Exército (EPEx).
A Elbit venceu a licitação internacional com o Atmos. Um fabricante eslovaco ficou em segundo lugar, com a promessa de associar-se à Avibrás para montar o equipamento no Brasil. A francesa KNDS terminou em terceiro, com o obuseiro Caesar, e contestou o resultado no Exército e no Tribunal de Contas da União (TCU). Os recursos foram rejeitados, mas o contrato com a empresa israelense não avançou.
A proposta vencedora já previa a montagem dos obuseiros no Brasil e a transferência de tecnologia para a fabricação de munições de calibres 105 mm e 155 mm pela Imbel. Como o documento mencionava uma parceria com uma empresa nacional sem indicar qual seria, o Exército considerou possível substituir essa definição pela Avibrás, desde que fossem preservados o preço e os requisitos originais.
As empresas realizaram uma videoconferência e concordaram com a cooperação. O plano prevê a montagem de dois protótipos e das outras 34 viaturas pela Avibrás, em Jacareí. A Imbel deverá produzir a munição.
Disputa com a proposta francesa
Antes da formalização desse arranjo, a KNDS retomou as negociações. A Direction Générale de l’Armement (DGA), agência do Ministério da Defesa francês, comunicou à Avibrás o interesse da fabricante em estabelecer uma parceria. As empresas já haviam trabalhado juntas no projeto Tupã, sistema de artilharia baseado no Caesar.
A alternativa francesa incluía a fabricação, no Brasil, de munições de calibres 105 mm, 120 mm e 155 mm. O calibre 120 mm é relevante para a família de veículos blindados do Exército, incluindo o Centauro II e possíveis novos carros de combate Tulpar, da Otokar, e Lynx 120, da Rheinmetall.
O Brasil não fabrica munição de 120 mm e tem estoque reduzido para os primeiros nove Centauros adquiridos pela Força Terrestre. A produção nacional depende de transferência de tecnologia vinculada a uma contrapartida de US$ 50 milhões relacionada ao contrato dos Centauros. A dificuldade de obtenção desse material no exterior foi um dos pontos apresentados pelos franceses ao Ministério da Defesa. A possibilidade de o Exército francês comprar o sistema Astros também integrou a ofensiva.
Próximas etapas
O ministro da Defesa, José Múcio Monteiro Filho, recebeu autorização de Luiz Inácio Lula da Silva em junho para buscar uma solução para a compra e, simultaneamente, apoiar a recuperação da Avibrás. A empresa já havia firmado com o Exército um contrato de R$ 300 milhões para fornecer foguetes do sistema Astros, concluir os testes do Míssil Tático de Cruzeiro-300 (MTC-300) e desenvolver um míssil tático balístico.
A expectativa do EME é que o contrato dos protótipos seja assinado ainda este ano. Depois dos testes no Centro de Avaliações do Exército (CAEx), a previsão é firmar um segundo contrato para as 34 viaturas restantes. O Colog deverá encaminhar a proposta à consultoria jurídica antes de autorizar a continuidade do processo.







