São Paulo, Quinta-feira, 1 de outubro de 2026
Economia

Master mantinha R$ 21 bilhões em precatórios e ativos ocultos em fundos

Direitos creditórios ligados a ações de usinas foram usados em operações que elevaram valores e ajudaram a sustentar o balanço do banco.

Master mantinha R$ 21 bilhões em precatórios e ativos ocultos em fundos

O Banco Master mantinha R$ 21 bilhões em precatórios e pré-precatórios, acima dos R$ 8 bilhões registrados em seu balanço. A diferença de R$ 13 bilhões estava distribuída em uma estrutura de fundos de investimento ligada ao banco, conforme o avanço das investigações sobre a instituição.

Parte desses ativos era formada por direitos creditórios relacionados a 16 ações judiciais de usinas de álcool e açúcar contra a União. Os papéis, conhecidos no mercado como pré-precatórios, dependiam de decisões judiciais e poderiam resultar em indenizações pagas pelo governo federal.

Operações entre fundos ligados ao banco

Entre 13 de outubro e 18 de novembro de 2025, o Master vendeu direitos creditórios avaliados em R$ 2,9 bilhões, de acordo com escrituras. Não há informação sobre o preço efetivamente pago pelos compradores.

As operações foram realizadas com instituições ligadas ao banco, incluindo fundos de investimento e a Entre, instituição de pagamento que, segundo a Polícia Federal, operacionalizava pagamentos para o Master.

Em uma das transações, um ativo relacionado à possível indenização da usina São João B. Lyzandro foi vendido pelo banco ao fundo GSR, ligado ao ecossistema de Daniel Vorcaro, por uma estimativa de R$ 962 milhões. Depois, o GSR transferiu o direito para o fundo Krispy, também ligado ao banco, e reavaliou o mesmo ativo em quase R$ 1,1 bilhão. A diferença superou R$ 100 milhões em menos de 24 horas.

O caso mostra como os pré-precatórios podiam alterar o valor dos ativos registrados nos balanços. As cifras eram estimativas e variavam conforme a metodologia utilizada.

Processos contra a União

O principal conjunto de ações envolve a política de preços adotada pelo Instituto do Açúcar e do Álcool na década de 1980. Usinas afirmaram à Justiça que foram obrigadas a vender a produção por valores inferiores ao custo e pediram indenizações à União.

A Advocacia-Geral da União estima a existência de 178 casos relacionados à fixação de preços nos anos 80 e 90. Segundo o Conselho da Justiça Federal, os precatórios já expedidos no setor sucroalcooleiro somam aproximadamente R$ 47,8 bilhões. A Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2025 estimou em R$ 79,6 bilhões o impacto fiscal desses processos.

Em parte das ações, ainda se discute a existência do direito à indenização. Em outras, o direito foi reconhecido em tese, mas permanecem em debate a necessidade de perícia individual e o valor de eventual prejuízo.

Precatórios e pré-precatórios são negociados com deságio, porque o comprador assume o risco e aguarda o pagamento. Os direitos adquiridos por Vorcaro podiam ser comprados por valores próximos de 20% da estimativa atribuída à ação. Caso as teses fossem aceitas pelo Superior Tribunal de Justiça e pelo Supremo Tribunal Federal, os detentores dos créditos poderiam receber valores pagos pela União.

Relatório enviado ao Banco Central

O escritório Galdino Advogados preparou, em 2024, um relatório sobre os 16 casos para ser entregue ao Banco Central. O documento avaliou a possibilidade de efetivação dos créditos e o prazo estimado para o recebimento dos valores, mas não examinou se os preços dos ativos eram adequados nos balanços do banco.

Dos 16 casos de usinas analisados, oito não tinham valores estimados no relatório. O escritório afirmou que os números reproduziam avaliações de perícias juntadas aos processos e que não fez a precificação dos casos. Também informou que as análises foram elaboradas sob demanda, apenas para os processos encaminhados à avaliação.

A falta de análise sobre o preço dos ativos é criticada por investigadores. Como eram ativos de difícil precificação, os direitos creditórios contribuíam para elevar o total de ativos do banco e permitiam que o Master continuasse operando e captando recursos, inclusive de fundos de previdência estatais.

Relações com integrantes do Judiciário

As investigações também expuseram mensagens de Vorcaro sobre contatos com integrantes do Judiciário e parentes de ministros do Supremo. Em conversas com Luiz Rennó, diretor jurídico do Master, Vorcaro discutiu pagamentos mensais de R$ 500 mil ao advogado Kevin de Carvalho Marques, filho do ministro Kassio Nunes Marques.

O ministro declarou que “nunca votou a favor de Daniel Vorcaro, nunca trocou mensagens com ele e nem pediu nada ao banqueiro”. Também afirmou que não autorizou ninguém a falar em seu nome.

O Master mantinha ainda um contrato de R$ 129 milhões com o escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes. O ministro não respondeu aos questionamentos por meio da assessoria de imprensa do Supremo.

Mensagens também indicaram que Vorcaro conversava com o ministro Benedito Gonçalves, do Superior Tribunal de Justiça. O magistrado disse estar “sempre à disposição” do ex-banqueiro e não respondeu aos questionamentos quando as conversas foram divulgadas.

Nesta terça-feira (22), o ministro Gilmar Mendes pediu que o julgamento sobre os precatórios do setor sucroalcooleiro fosse levado ao plenário. A ação envolve o pagamento das indenizações relacionadas às usinas.

Texto produzido pela Redação Mapa do Mercado com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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