SÃO PAULO — Um esquema de troca de emendas parlamentares deslocou para o Supremo Tribunal Federal (STF) a investigação sobre suspeitas de desvios de recursos da Prefeitura de São Paulo, segundo o Ministério Público do Estado de São Paulo. A apuração envolve o deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP), vereadores e empresários.
As informações constam de um documento sigiloso de 89 páginas elaborado pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e encaminhado à Procuradoria Geral da República (PGR). As conversas do empresário Antonio Cerqueira Junior com parlamentares levaram os promotores a identificar a articulação.
Como funcionaria a troca
Segundo o Gaeco, Cerqueira Junior perguntou ao vereador Marcelo Messias (MDB) se conhecia alguém disposto a fazer uma troca de emendas. A operação consistiria em um deputado enviar recursos para uma área escolhida pelo vereador, enquanto o parlamentar municipal destinaria verba a outro setor de interesse do deputado.
O empresário explicou que Cezinha não poderia direcionar diretamente recursos às secretarias municipais da Cultura ou de Esportes, porque a verba federal deveria ir para a Saúde. A alternativa seria enviar o dinheiro à Saúde e obter, em contrapartida, recursos municipais para ações culturais ou eventos esportivos. Messias afirmou que as mensagens são inverídicas.
O relatório registra que Cerqueira Junior viabilizou o recebimento de R$ 3 milhões de Cezinha pouco depois de conversar com o vereador João Jorge, também do MDB. Mensagens de uma assessora parlamentar indicariam ainda a previsão de mais R$ 1 milhão para shows e espetáculos. Jorge negou ter pedido percentual, vantagem ou contrapartida por emenda.
Durante as conversas, o empresário também tratou da destinação, dos valores, das aprovações e das liberações de recursos com funcionárias da Secretaria Municipal da Cultura. Em uma mensagem, afirmou que os recursos estavam “amarradinhos” para “não dar ruim depois”.
Participação de integrantes da Prefeitura
O empresário conversou com Diogo Batista Soares, então secretário executivo da Secretaria de Governo da Prefeitura de São Paulo e atual secretário de Habitação do Município. Cerqueira disse que o deputado queria saber se tudo havia dado certo e que marcaria um café após falar com “RN”, referência que os promotores associaram ao prefeito Ricardo Nunes, então assessorado por Diogo.
Depois, Cerqueira informou a Cezinha que havia acertado a troca com João Jorge e pediu a Diogo que acelerasse a liberação da verba. Em outro diálogo, Diogo afirmou que o recurso estava liberado na Secretaria da Fazenda. Mais tarde, disse ter conversado com Aline Torres, então secretária de Cultura. Ela perguntou se era para fazer a liberação, e Diogo respondeu que “sim”.
Aline afirmou não se lembrar de todas as liberações realizadas durante sua gestão. Ricardo Nunes e o secretário municipal negaram as acusações. Em nota, a assessoria do prefeito disse que ele jamais recebeu valores provenientes de contratos, convênios, emendas parlamentares ou entidades relacionadas ao poder público.
Cezinha foi alvo, na segunda-feira, 14, de uma operação da Polícia Federal sob suspeita de tráfico de influência em tribunais superiores. O deputado afirmou que teve o celular furtado na Avenida Paulista dois dias antes da operação. Ele não respondeu às tentativas de contato por meio do gabinete e de assessores. Cerqueira Junior também não foi localizado nos endereços de seus imóveis e empresas.







