SÃO PAULO — A disputa global por inteligência artificial combina investimentos privados, políticas estatais e controle sobre chips, nuvem e infraestrutura de computação. Nesse cenário, o Brasil corre o risco de permanecer como consumidor de soluções desenvolvidas no exterior, sem domínio sobre sistemas essenciais para sua economia e segurança.
O alerta ganhou dimensão geopolítica após gigantes de Wall Street se unirem à Nvidia para criar um fundo de financiamento de inteligência artificial avaliado em US$ 500 bilhões. O movimento aproxima capital e infraestrutura e reforça a posição da empresa, já dominante na fabricação de chips, em uma cadeia considerada estratégica para a economia global.
Jens Stoltenberg, secretário-geral da OTAN, afirmou em discurso no Fórum Econômico Mundial, em Davos, que a tecnologia passou a integrar a agenda de segurança militar e nacional. “A tecnologia tornou-se o novo campo de batalha”, disse.
Estados Unidos, China e a disputa por chips
Os Estados Unidos concentram grande parte dos investimentos privados e públicos em inteligência artificial e atuam em diferentes etapas da cadeia, do desenho de chips ao software. A China respondeu com investimentos estatais de centenas de bilhões apenas na última década, buscando um ecossistema próprio, da extração de terras raras à produção de semicondutores e ao desenvolvimento de modelos de linguagem.
A dependência externa pode atingir áreas como saúde, energia, defesa e finanças. Sistemas operados por plataformas ou equipamentos controlados fora do país poderiam sofrer restrições em caso de conflito geopolítico ou divergências comerciais. O cenário descrito é hipotético, mas expõe o risco associado à falta de controle sobre infraestruturas críticas.
O espaço do Brasil
O país ainda não tem uma estratégia nacional definida para garantir soberania em infraestrutura de computação de alto desempenho. A discussão envolve também a Estratégia Brasileira de Inteligência Artificial e a governança dos dados públicos.
Gil Castelo Branco, secretário de Economia Digital do Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, defendeu que o Brasil processe seus próprios dados e desenvolva modelos alinhados às suas realidades e valores. “O Brasil não pode ser apenas um exportador de dados brutos e importador de inteligência processada”, afirmou.
Entre as medidas discutidas estão a formação de profissionais em ciência de dados, engenharia de hardware e inteligência artificial; a cooperação com parceiros latino-americanos; o desenvolvimento de nichos de semicondutores; e a exigência de transferência de tecnologia e instalação de centros de dados soberanos em território nacional para investimentos estrangeiros.
A União Europeia também busca reduzir sua dependência de chips asiáticos e americanos. Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, afirmou que o objetivo é alcançar autonomia estratégica em áreas que vão da nuvem à indústria de semicondutores.
Para o Brasil, a definição de uma posição na cadeia tecnológica envolve tanto a geração de riqueza quanto a capacidade de manter sob controle infraestruturas essenciais. A ausência de ação pode ampliar a distância em relação aos países que concentram capital, hardware e conhecimento em inteligência artificial.








