A deterioração do consumo no Irã já afeta atividades básicas, do transporte por aplicativo à compra de arroz. A pressão combina a desvalorização do rial, a inflação e o aumento de 100% no preço dos combustíveis, enquanto salários e tarifas não acompanham a alta das despesas.
O rial caiu de cerca de 1,45 milhões de riais por dólar dos EUA em março de 2026 para mais de 2,1 milhões no início de setembro, de acordo com dados do mercado cambial livre do país. Na quinta-feira, o dólar superou 234 mil tomans, ou 2,34 milhões de riais, e o euro alcançou 273 mil tomans, ou 2,73 milhões de riais.
Embora o rial seja a moeda oficial, os preços cotidianos são geralmente expressos em tomans, unidade equivalente a 10 riais. O rial já havia perdido mais de 63% do valor frente ao dólar desde março.
Combustível reduz margem dos motoristas
O governo passou a distribuir 60 litros por mês a 1.500 tomans por litro e uma cota adicional, sem subsídio, de 50 litros a 3.000 tomans. O consumo acima desses limites custa 10.000 tomans por litro. As cotas estão vinculadas individualmente aos proprietários, de modo que famílias com mais de um veículo recebem apenas uma dotação mensal.
Forças de segurança foram vistas em postos de várias cidades para evitar distúrbios após o reajuste. O impacto é ampliado pela renda mensal, que em alguns casos ronda 100 euros, e pelo preço de itens básicos: uma garrafa de 1,5 litros de água mineral custa cerca de 20.000 tomans ou mais.
Mehdi, motorista em tempo integral da Snapp, em Teerã, percorre cerca de 200 quilômetros ao trabalhar oito horas por dia. Sua receita teórica mensal é de 65 milhões de tomans, ou 236 euros. Comissões, combustível, óleo e a desvalorização do veículo consomem quase 30 milhões de tomans, cerca de 109 euros, deixando 35 milhões de tomans, aproximadamente 127 euros.
As tarifas não foram reajustadas pela empresa, segundo o motorista, porque os passageiros não conseguiriam absorver a alta. Mahmoud, que trabalhava para a Tapsi, relatou que os pedidos despencaram durante os 40 dias de guerra e nas semanas seguintes ao cessar-fogo.
Salários perdem capacidade de compra
Samaneh, funcionária de uma empresa privada dos setores de petróleo, gás e energia solar, disse que o aumento salarial recebido neste ano perdeu efeito em poucas semanas. Segundo ela, 18 milhões de tomans, equivalentes a 65 euros, que antes cobriam frango, carne, produtos básicos e itens de higiene por um mês, já não são suficientes.
A trabalhadora passou a comprar produtos de menor qualidade, frutas danificadas e carne em mercados atacadistas municipais. Para quem recebe salário-base de 30 milhões de tomans, ou 109 euros, e paga aluguel, a compra de alimentos básicos tornou-se inviável, afirmou.
Em Kerman, Ladan, professora aposentada, informou que um docente veterano recebe cerca de 25 milhões de tomans, ou 90 euros, por mês após impostos e descontos. Turnos extras em escolas privadas podem elevar a renda do grupo familiar a 50 milhões de tomans, ou 181 euros, valor que, segundo ela, mal sustenta duas pessoas.
A aposentada afirmou: “Costumava ir aos hipermercados e comprava, sem dificuldades, dois sacos de 10 quilos de arroz. Agora, mal consigo comprar um”. Um saco de arroz iraniano de qualidade média chegou a 4 milhões de tomans, ou 14,50 euros. Parte foi paga com o cartão de apoio social Kalabarg.
Pequenos negócios enfrentam queda nas vendas
A inflação também reduziu a margem de lanchonetes nas áreas periféricas de Teerã. Hashem, dono de uma loja de fast food em uma cidade operária nos arredores da capital, disse que o queijo para pizza subiu de 180 mil tomans por quilo para 750 mil tomans, ou 2,72 euros. O produto de maior qualidade alcançou 880 mil tomans, ou 3,20 euros.
Os molhos individuais passaram de 700 tomans para mais de 8.300 tomans, e o papel usado para embrulhar sanduíches triplicou de preço. Uma pizza simples, antes vendida por 130 mil tomans, passou a custar 300 mil tomans, ou 1,09 euros.
Apesar de o faturamento nominal parecer maior, Hashem afirmou que a margem de lucro caiu pela metade e que a base de clientes recuou 50%. “As pessoas estão com fome”, disse o comerciante.
Dentro do Parlamento iraniano, Hassan Ghashghavi, porta-voz da Comissão de Segurança Nacional e Política Externa, atribuiu parte relevante da crise a problemas internos, como má gestão, concentração de riqueza e corrupção financeira. Ele afirmou que entre 35% e 65% dos problemas econômicos têm origem em questões internas, enquanto cerca de 35% estariam ligados à política externa e às sanções dos Estados Unidos.






