Um levantamento internacional identificou 33.006 exemplares de espécies protegidas anunciados em 280 plataformas digitais. O estudo, liderado pela Universidade de Helsinque, na Finlândia, mostra que o comércio ilegal alcança animais vivos, partes de animais e produtos derivados em redes sociais e marketplaces.
Do total encontrado, 54% eram animais vivos e 46% correspondiam a partes ou derivados. A pesquisa foi publicada na revista Nature Reviews Biodiversity e abrangeu ofertas de aves, serpentes, rãs, orquídeas e cactos. Entre os itens anunciados estavam espécies ameaçadas de extinção e outras que ainda não eram consideradas particularmente vulneráveis ao tráfico ilegal.
Plataformas e escala
Em um monitoramento de seis semanas realizado em 2025, os pesquisadores localizaram mais de 1,6 mil primatas disponíveis para venda no Facebook, Instagram, TikTok e YouTube. O estudo também identificou a presença desse tipo de comércio em eBay, Google, Alibaba e Shopee.
Para os pesquisadores, a baixa percepção de risco, a fragilidade da regulamentação e o anonimato favorecem a atuação dos traficantes. As plataformas permitem ainda uma velocidade e um alcance difíceis de alcançar pelos canais tradicionais de comércio ilegal.
“O comércio ilegal de fauna e flora silvestres online se estende por inúmeras plataformas”, afirma Enrico Di Minin, professor da Universidade de Helsinque e líder do estudo. Segundo ele, essa atividade representa uma ameaça crescente e em constante evolução para a conservação da biodiversidade.
Os efeitos não se limitam às espécies diretamente comercializadas. O tráfico pode elevar os riscos de introdução de espécies invasoras e de transmissão de doenças entre animais e seres humanos. Os pesquisadores também apontam lacunas nos dados sobre o tamanho real do mercado e o comportamento dos consumidores, o que dificulta a formulação de respostas eficazes.
Exemplos no continente africano
Entre 2010 e 2021, cerca de 800 mil papagaios-cinzentos-africanos foram comercializados internacionalmente. No Togo, o monitoramento de contas de exportadores no Facebook encontrou mais de 200 espécies diferentes oferecidas para venda.
Na África do Sul, a procura internacional por suculentas do gênero Conophytum desde 2019 estimulou a coleta dessas plantas no bioma do Karoo Suculento. A expansão da atividade saturou o mercado ilegal e reduziu o preço da planta para aproximadamente um centésimo do valor original em três anos. A pressão, porém, migrou para outras plantas e também para répteis.
Resposta coordenada
Os autores defendem que fiscalização e ferramentas tecnológicas precisam ser acompanhadas por uma ação conjunta de comunidades locais, empresas de tecnologia, órgãos reguladores e organizações não governamentais.
Entre as medidas citadas estão o uso de inteligência artificial para reforçar a vigilância e o endurecimento da moderação nas plataformas. A cooperação internacional, a Convenção sobre Comércio Internacional das Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção (Cites) e a Lei dos Serviços Digitais da União Europeia também são apontadas como instrumentos relevantes.
Annette Hübschle, pesquisadora da Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul, defende a inclusão do conhecimento das comunidades locais e da experiência do Sul Global nas estratégias de combate. Para Di Minin, o problema é “complexo, mas não insuperável” e exige cooperação entre setores e políticas que considerem a dimensão digital do tráfico.







