Startups brasileiras e globais estão ocupando a frente da automação operacional de recursos humanos com modelos que combinam agentes de inteligência artificial, especialistas e software. O movimento ocorre enquanto executivos responsáveis pela área, os CHROs, ainda discutem governança, arquitetura e velocidade de adoção.
Em fevereiro de 2026, a Comp anunciou uma rodada Series A de US$ 17,25 milhões, liderada pela Khosla Ventures. Foi a primeira rodada da empresa brasileira com participação da gestora. O modelo da startup não se limita à venda de software: a proposta é oferecer automação de RH como serviço.
A Comp combina agentes autônomos com especialistas de RH que atuam dentro do cliente como extensão da equipe. Esses profissionais executam o trabalho inicialmente e usam os resultados para treinar os agentes. Christophe Gerlach, CEO e cofundador da empresa, resumiu a proposta: “Nós queremos nos tornar o time de RH”.
Segundo Gerlach, a Comp atende mais de 100 empresas, entre elas Nubank, QuintoAndar e Creditas. A startup atua em processos como compensação, recrutamento e desenho de avaliações de desempenho.
Três modelos de automação
A Elofy lançou seus agentes autônomos de RH em agosto de 2026. A plataforma integra gestão de desempenho, OKRs e RH por meio da chamada Inteligência Elo, uma camada de agentes que conecta sinais da jornada dos funcionários, identifica padrões e sugere intervenções.
A empresa se posiciona como um sistema que antecipa riscos e orienta decisões, em vez de apenas responder a solicitações. Entre as aplicações estão avaliações de desempenho, planos de desenvolvimento individual e sucessão. A Elofy informa operar em mais de 200 empresas e ter processado mais de 1 milhão de avaliações de desempenho.
A Leena AI adota um modelo SaaS, com integração aos sistemas existentes e configuração feita pela própria equipe do cliente. Na Beacon Mobility, empresa americana de mobilidade com cerca de 18 mil funcionários, a plataforma automatizou 60% das consultas de RH sem intervenção humana e atingiu 97,5% de satisfação na resolução de chamados.
Segundo a Leena AI, a implementação também economizou mais de 2.000 horas de trabalho manual de RH. No mesmo período, a Beacon Mobility registrou aumento de 50,5% nas contratações em relação ao ano anterior, mantendo a operação com a mesma equipe de RH.
Pressão por velocidade e governança
A pesquisa da PwC indica que agentes de IA podem afetar mais de 60% do trabalho funcional de RH e 88% dos fluxos administrativos. Atividades como triagem de candidatos, gestão de compensação, avaliações de desempenho e suporte aos funcionários estão entre as tarefas apontadas como 80% automatizáveis em RH.
A adoção também é impulsionada pela escassez de profissionais de tecnologia. Segundo a Brasscom, há um déficit de 30,2% entre oferta e demanda por esse tipo de trabalhador e uma projeção de até 1 milhão de vagas tecnológicas não preenchidas até 2030.
Nesse cenário, a automação deixa de ser apenas uma iniciativa experimental. A configuração de agentes em low-code pode ocorrer em dias, mas decisões sem uma arquitetura clara podem ficar incorporadas ao código. A definição sobre a responsabilidade pela plataforma — RH, tecnologia da informação ou negócio — também permanece em aberto para muitas organizações.
Um relatório da Kyndryl aponta que 23% das empresas estão preparadas em relação à força de trabalho para a IA, enquanto 57% já têm a tecnologia amplamente implantada. A diferença indica que a adoção tecnológica avança mais rapidamente que as estruturas de decisão e de gestão de dados.
A McKinsey alerta que, sem uma direção clara antes da multiplicação de pilotos, as empresas podem terminar com centenas de agentes fragmentados. As startups procuram reduzir esse risco ao entrar com escopos definidos, como compensação, triagem, desempenho e suporte.
Para as empresas fornecedoras, o valor está na execução de tarefas específicas, e não necessariamente em projetos amplos de transformação de RH. Para os CHROs, o desafio passa a ser escolher entre modelos com especialistas incorporados, agentes voltados à operação contínua ou uma plataforma SaaS configurável, sem reproduzir processos antigos em código.








