A OpenAI afirma que seus agentes de inteligência artificial encontraram uma possível solução para um problema ligado às equações de Navier-Stokes, uma das questões matemáticas em aberto mais conhecidas. A alegação, porém, é contestada por pesquisadores que questionam a rapidez do resultado e a forma como a empresa desenvolveu o trabalho.
A questão integra os sete Problemas do Milênio do Clay Mathematics Institute. Cada solução correta vale US$ 1 milhão (cerca de R$ 5,4 milhões). O desafio é determinar se as equações sempre produzem respostas finitas ou se podem apresentar uma singularidade, chamada de “blowup”, em que a velocidade ou a pressão de um fluido aumentaria indefinidamente em determinado ponto.
Estratégia e escala do experimento
Para investigar o problema, a OpenAI aplicou a técnica chamada forcing, que introduz uma perturbação suave e controlada no fluido simulado. Aproximadamente dez mil agentes de IA trabalharam simultaneamente durante cerca de 88 horas. Cerca de 100 começaram pelas equações de Euler, uma versão relacionada que desconsidera a viscosidade.
Após aproximadamente 50 horas, os agentes encontraram blowups nas equações de Euler e direcionaram os esforços para Navier-Stokes. A empresa afirma ter produzido uma singularidade em que um vórtice se torna progressivamente mais apertado, alongado e fino, fazendo o fluido girar matematicamente em direção ao infinito.
A prova foi submetida ao Lean, programa usado para verificar etapas de argumentos matemáticos. Segundo a OpenAI, os agentes trocaram 2,7 milhões de mensagens e produziram aproximadamente 130 bilhões de tokens. Em uma coletiva na terça-feira (8), representantes da empresa disseram que uma tarefa semelhante feita para um cliente teria custado US$ 15 milhões (cerca de R$ 81 milhões).
Disputa sobre a origem da abordagem
Tristan Buckmaster, da Universidade de Nova York, afirmou que ele e Levent Alpöge, da Anthropic, obtiveram resultados de blowup nas equações de Euler com forcing suave em 15 de agosto. Em 3 de setembro, Buckmaster disse ter sido informado de que a OpenAI conhecia o avanço da dupla e havia adotado método semelhante.
A estratégia havia sido desenvolvida pelos matemáticos Diego Córdoba, do Instituto de Ciências Matemáticas de Madri, e Luis Martínez-Zoroa, da Universidade CUNEF. Buckmaster afirmou que quase ninguém além deles trabalhava com essa linha de investigação.
A OpenAI declarou que iniciou o trabalho com Navier-Stokes em 1º de setembro, depois de ouvir “rumores sobre outras resoluções de problemas do milênio”. Sam Altman, CEO da empresa, reconheceu que a companhia soube do trabalho de Buckmaster e Alpöge antes de divulgar o próprio resultado. Ele disse que as abordagens “parecem diferentes”, afirmação contestada por Buckmaster.
A empresa citou os dois pesquisadores, reconheceu a resolução independente do problema de Euler com forcing e ofereceu a possibilidade de publicação conjunta.
Questionamentos sobre dados e autoria
Buckmaster também levantou dúvidas sobre o uso do Codex, assistente de programação da OpenAI. Ele afirmou que utilizava a ferramenta durante a pesquisa e inseria nela rascunhos do trabalho com Alpöge. O matemático disse ter perguntado se as sessões poderiam ter sido acessadas ou usadas para treinar modelos, mas não recebeu resposta sobre o treinamento.
A OpenAI afirmou que funcionários ou agentes não tiveram acesso ao trabalho da dupla “por nenhum meio” antes da divulgação pública. A companhia, contudo, disse não poder descartar que dados anonimizados derivados do uso de seus produtos tenham contribuído para melhorar seus modelos.
Buckmaster acusou Sébastien Bubeck, responsável pela pesquisa matemática da OpenAI, de pressionar duas vezes para retirar Alpöge da autoria de um artigo. Bubeck negou e classificou as alegações como “falsas e inflamatórias”. Ele afirmou que a OpenAI não usou os prompts ou as provas dos pesquisadores para orientar seus modelos.
Buckmaster disse não ter visto a prova da OpenAI e não saber como o modelo chegou ao resultado nem se os dados dos pesquisadores foram utilizados. Ele pediu uma investigação independente.
Revisão ainda pendente
Diego Córdoba afirmou ter ficado surpreso com a rapidez do resultado. Terence Tao, professor da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), disse que o episódio mostra como o rumor sobre uma pesquisa pode desencadear um esforço massivo de IA antes da conclusão do trabalho original.
Para Tao, esse tipo de incentivo pode levar pesquisadores a deixar de compartilhar ideias promissoras, prejudicando a tradição de ciência aberta. A prova da OpenAI ainda aguarda revisão formal por pares, e o Clay Mathematics Institute não confirmou nem rejeitou oficialmente a solução.







