NOVA YORK — A inteligência artificial entrou na agenda de alto nível das Nações Unidas em meio à disputa entre Estados Unidos e China sobre os limites, os riscos e a governança da tecnologia. O Conselho de Segurança da ONU adicionou uma reunião sobre o tema à programação de quarta-feira, sinalizando a preocupação crescente com o avanço dos sistemas de IA.
A discussão ocorre durante a semana da Assembleia Geral da ONU, em um cenário marcado por guerras no Irã, Gaza, Ucrânia, Sudão, Congo e Mianmar, além de impactos econômicos associados a eventos climáticos extremos, conflitos, bloqueios de rotas de navegação e problemas nas cadeias de suprimentos.
Divergências entre empresas e governos
A disputa ganhou força após o CEO da Anthropic, Dario Amodei, publicar, em 12 de setembro, um artigo sobre o ritmo de desenvolvimento dos modelos de IA. Ele afirmou que o chamado autoaperfeiçoamento recursivo — quando sistemas de IA impulsionam o próprio desenvolvimento — acelera a evolução da tecnologia e propôs uma desaceleração coordenada entre as empresas do setor.
Sam Altman, da OpenAI, Elon Musk, da SpaceXAI, e Demis Hassabis, ex-CEO do Google DeepMind, concordaram com a proposta. Altman afirmou que desacelerar não significaria interromper o desenvolvimento, mas assumir os custos de auditorias e testes de segurança para evitar que a capacidade dos modelos supere seu alinhamento. Em entrevista à revista Fortune, ele também disse que a OpenAI não estreará na Bolsa de Valores em 2026, citando preocupações com segurança e riscos da IA.
Mark Zuckerberg, da Meta, e Jensen Huang, da Nvidia, rejeitaram a ideia de uma desaceleração coordenada. Zuckerberg avaliou que os laboratórios já têm incentivos financeiros e jurídicos para desenvolver sistemas seguros. Huang disse que segurança é um problema de engenharia e que as leis existentes já tratam da confiabilidade dos produtos.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, minimizou os riscos potenciais da IA e defendeu a manutenção da liderança americana sobre a China. Para a administração dos EUA, a liderança tecnológica está ligada à segurança nacional.
Pequim respondeu que a proposta de Amodei teria o objetivo de conter o avanço chinês e preservar a hegemonia tecnológica americana. O governo chinês, porém, também reconhece os riscos da tecnologia. Chen Yixin, ministro da Segurança, defendeu a aceleração de um sistema para prevenir e controlar problemas relacionados à IA, além de uma cooperação internacional ampla.
Posição das Nações Unidas
Em 14 de setembro, o Alto Comissário de Direitos Humanos da ONU, Volker Türk, afirmou que a autorregulação voluntária é “extremamente insuficiente”. Ele disse que nenhum país pode governar a tecnologia sozinho e que nenhuma empresa deve decidir isoladamente quais riscos a sociedade aceitará.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, também alertou que os riscos associados ao avanço acelerado da IA não podem ser ignorados. A organização trabalha na criação de um fórum para que os países desenvolvam uma compreensão comum sobre a tecnologia e discutam cooperação, segurança, direitos humanos e disparidades de acesso.
Guterres comparou o atual desenvolvimento da IA à corrida armamentista da Guerra Fria e defendeu mecanismos de contato, troca de informações e diretrizes comuns entre os países mais avançados no setor. Para a ONU, a cooperação entre Estados Unidos e China é necessária para evitar uma corrida desenfreada enquanto os riscos continuam sendo avaliados.
O segundo mandato de cinco anos de Guterres termina em 31 de dezembro, e sua sucessão permanece indefinida.
Encontro de líderes
Por tradição, o Brasil abre os discursos da Assembleia Geral, seguido pelos Estados Unidos. Lula e Trump devem falar nessa sequência. Xi Jinping deve enviar um representante, mas participará na quarta-feira de um jantar com Trump em Washington.
Entre os convidados estão Jeff Bezos, Elon Musk, Sam Altman, Jensen Huang, Sundar Pichai, Michael Dell e Jane Fraser. Tim Cook, que deixou o cargo de CEO da Apple, também participará do encontro.







