WASHINGTON — O jantar de Estado oferecido por Donald Trump a Xi Jinping reuniu na Casa Branca os principais atores da disputa tecnológica entre Estados Unidos e China. O encontro encerrou o segundo dia da visita oficial do presidente chinês a Washington e ocorreu após uma reunião entre os dois líderes sobre temas que incluíram inteligência artificial e a chegada de pandas ao zoológico de Atlanta.
A inteligência artificial esteve no centro das visões divergentes apresentadas pelos presidentes. Trump afirmou que a chamada superinteligência seria um dos principais assuntos da conversa e defendeu a continuidade do desenvolvimento tecnológico nos Estados Unidos. Também disse que o país está à frente da China nessa área e que pretende preservar essa vantagem.
Na avaliação de Trump, quem vencer a disputa pela superinteligência terá a liderança tecnológica. O presidente americano também rejeitou, na ONU, qualquer tentativa de criar um sistema global para controlar a inteligência artificial. Para ele, o avanço deve continuar acompanhado de mecanismos para lidar com possíveis problemas.
Xi, por sua vez, afirmou que o desenvolvimento da inteligência artificial deve permanecer sob controle humano e atender ao bem-estar das pessoas. O líder chinês também declarou que China e Estados Unidos são nações líderes no setor, apesar da competição entre os dois países.
Cooperação, chips e Taiwan
Em comunicado divulgado pela imprensa estatal chinesa, Xi afirmou que os dois países têm motivos para cooperar e devem aproveitar suas respectivas capacidades em inteligência artificial, em vez de se protegerem mutuamente. A nota também mencionou a possibilidade de manter o diálogo sobre riscos e benefícios da tecnologia e de trabalhar para evitar seu uso indevido e abuso.
Os ministros das Finanças dos dois países haviam se reunido no início da semana. Na ocasião, os Estados Unidos propuseram um mecanismo de notificação para incidentes de inteligência artificial entre as duas nações.
A relação entre Washington e Pequim também envolve uma trégua comercial que, segundo as informações apresentadas, seria ampliada por dois meses, com validade até 10 de janeiro. No mesmo comunicado, Xi reiterou a posição chinesa sobre a reunificação nacional e a integridade territorial e pediu que os Estados Unidos se oponham à independência de Taiwan.
Os semicondutores são outro ponto central da disputa. Os Estados Unidos ocupam posição relevante no design de chips e no desenvolvimento de softwares e tecnologias essenciais. Já a fabricação dos componentes mais avançados está concentrada principalmente na Ásia, especialmente em Taiwan e na Taiwan Semiconductor Manufacturing Company Limited, a TSMC.
A concentração da produção em Taiwan é tratada como um fator de risco para a cadeia global de tecnologia, devido à proximidade da ilha com a China e às tensões regionais. Nos últimos anos, o governo americano adotou restrições ao acesso chinês a equipamentos e softwares usados na produção de chips avançados. Com isso, os semicondutores passaram a ser tratados pelos governos como tema de segurança nacional.
Executivos do setor no jantar
A recepção também contou com executivos de empresas envolvidas em chips, inteligência artificial, plataformas digitais e infraestrutura tecnológica. Jensen Huang representou a Nvidia; Mark Zuckerberg, a Meta; Sundar Pichai, o Google; Tim Cook, a Apple; Sam Altman, a OpenAI; Elon Musk, a Tesla, SpaceXAI e X; e Jeff Bezos participou como fundador da Amazon.
A presença dos executivos ocorreu em meio a divergências sobre os riscos e o ritmo de desenvolvimento da inteligência artificial. Em 12 de setembro, Dario Amodei, CEO da Anthropic, defendeu uma desaceleração coordenada entre empresas do setor diante do avanço do autoaperfeiçoamento recursivo.
Sam Altman, Elon Musk e Demis Hassabis concordaram com a proposta. Mark Zuckerberg e Jensen Huang se posicionaram contra a desaceleração. Zuckerberg afirmou que os laboratórios já têm incentivos financeiros e jurídicos para desenvolver sistemas seguros, enquanto Huang classificou a segurança como um problema de engenharia e disse que as leis existentes cobrem a confiabilidade dos produtos.
Trump minimizou os possíveis riscos associados à inteligência artificial e defendeu que os Estados Unidos mantenham a liderança sobre a China. A administração americana considera essa liderança uma questão de segurança nacional.
A China respondeu ao artigo de Amodei por meio de um editorial do Global Times, que classificou a proposta como uma tentativa de conter o avanço chinês e preservar a hegemonia tecnológica americana. O país também acusou empresas americanas de inteligência artificial de usar modelos chineses em processos de treinamento. Autoridades dos Estados Unidos investigam, por outro lado, companhias chinesas por suposto uso indevido de tecnologias americanas.







