A avaliação de programas de inovação não deveria terminar na seleção de uma startup ou na entrega de um prêmio. Para Kelly Nascimento, fundadora da Kaus Media, é necessário acompanhar o que acontece depois: quais empresas avançam, quais obstáculos enfrentam e que tipo de suporte precisam em cada etapa.
Em conversas com fundadores de empresas de biotecnologia, Kelly identifica uma tensão entre o entusiasmo pelas descobertas e a dificuldade de financiar a fase seguinte. Também observa receio de que críticas aos mecanismos de apoio prejudiquem futuras oportunidades. Com isso, limitações relevantes podem ficar fora do debate público.
Um reconhecimento pode representar uma conquista e, ao mesmo tempo, coexistir com a preocupação sobre a sobrevivência da empresa. A dependência dos programas dificulta discutir como aperfeiçoá-los sem colocar em risco novas possibilidades de apoio.
Da tecnologia ao paciente
A trajetória da Paradromics ilustra a quantidade de etapas entre uma descoberta e sua aplicação clínica. Em 14 de setembro, uma participante de um estudo clínico da empresa, com uma doença neurológica que comprometia sua fala, conseguiu se comunicar por meio de uma voz gerada por uma interface cérebro-computador, inclusive em conversas telefônicas com os netos.
O dispositivo decodifica sinais cerebrais associados à fala. A Paradromics também relatou resultados com palavras imaginadas, sem que houvesse tentativa de pronunciá-las. Naquele momento, os resultados ainda não tinham sido publicados em periódico nem revisados por pares, e a utilização em larga escala dependia de pesquisa e validação.
Em 2021, a empresa anunciou US$3,2 milhões em apoio do Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos, com participação do Massachusetts General Hospital. O comunicado também registrava investimento privado e apoio público anterior dos Institutos Nacionais de Saúde e da DARPA, agência americana voltada ao desenvolvimento de tecnologias emergentes em defesa.
Para Kelly, a experiência mostra como recursos e parceiros precisam ser conectados ao longo do desenvolvimento. No caso de uma empresa de biotecnologia, o avanço seguinte pode exigir a produção de um lote para testes e o financiamento de um estudo. Uma orientação genérica sobre empreendedorismo não substitui esse suporte específico.
O que ocorre após a seleção
Antes de abrir uma nova turma de aceleração, organizações deveriam examinar o percurso das empresas já atendidas. A análise pode mostrar a necessidade de um programa especializado ou apontar outras prioridades, como infraestrutura para testes, apoio à produção e acesso a compradores.
Essa avaliação também precisa separar maturidade tecnológica de maturidade comercial. O TRL indica o grau de desenvolvimento de uma tecnologia, mas não revela, sozinho, se a empresa sabe quem comprará sua solução. Da mesma forma, uma proposta comercial consistente não prova que o produto está pronto para uso.
O desenho do apoio pode envolver diferentes atores. Um hospital pode contribuir para definir um estudo ou um piloto com critérios de avaliação. Uma indústria pode apoiar o desenvolvimento do processo produtivo. Já os financiadores precisam considerar o prazo e o risco de cada fase. Ao fim da aceleração, o empreendedor deveria enxergar uma possibilidade de continuidade.
Programas também precisam estar preparados para resultados negativos. Um ensaio pode mostrar que uma hipótese não se sustenta, enquanto um piloto pode indicar a necessidade de mudar a solução ou interromper seu desenvolvimento. Nesses casos, o apoio ainda produz valor ao permitir decisões baseadas em evidências.
A demanda como parte da inovação
A formação de mercado é outro componente da trajetória. Na Índia, o GeM Startup Runway cria um canal para que startups ofereçam produtos e serviços a compradores governamentais. A China desenvolveu um instrumento de compras para inovação que combina o compartilhamento do risco de desenvolvimento com a aquisição dos produtos que atendam ao contrato.
No Brasil, o Ministério da Saúde abriu, em julho, uma consulta para estruturar uma encomenda tecnológica de um dispositivo portátil de diagnóstico de tuberculose. A demanda sanitária orienta o desenvolvimento pretendido, mas a iniciativa ainda estava em estruturação no anúncio. O acompanhamento entre intenção, contratação e entrega é parte relevante da avaliação.
A promessa de aceleração, na avaliação de Kelly, precisa ter alcance definido. A organização responsável deve explicar que avanço pretende ajudar a produzir e acompanhar sua contribuição com evidências compatíveis. Um prêmio reconhece uma conquista segundo os critérios de uma seleção; um teste clínico produz evidências científicas; um contrato formaliza uma decisão de compra. São resultados diferentes dentro da trajetória de uma empresa de base científica.
A clareza sobre o papel de cada instrumento permite corrigir programas e conectar oportunidades que hoje estão dispersas. Antes de oferecer uma nova rodada de apoio, a prioridade deveria ser compreender por que a anterior não resolveu o problema que pretendia enfrentar.








