São Paulo, Segunda-feira, 21 de setembro de 2026
Política

Privatizações da Sabesp e da Emae aproximam governo Tarcísio do Banco Master

Doações, negócios com Nelson Tanure e suspeitas sobre conflitos de interesse estão no centro de pedidos de investigação em São Paulo.

Entenda ponto a ponto a relação entre a privatização da Sabesp pelo governo Tarcísio e o Banco Master

As privatizações da Empresa Metropolitana de Águas e Energia (Emae) e da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) aproximaram o governo Tarcísio de Freitas de empresários ligados ao Banco Master, segundo documentos de órgãos públicos e investigações em andamento. Entre os pontos levantados estão a doação de campanha feita por Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, controlador do banco, e operações envolvendo Nelson Tanure, apontado como sócio oculto da instituição financeira.

Tarcísio recebeu R$ 2 milhões de Zettel na campanha de 2022. Tanure é investigado pelo Banco Central, pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal. Ele também é beneficiário final do Fundo Phoenix, administrado pela Trustee DTVM, distribuidora de títulos e valores mobiliários ligada ao Banco Master.

A operação da Emae

Em abril de 2024, o Fundo Phoenix venceu o leilão da Emae por R$ 1,04 bilhão. O fundo apresentou como garantia ações da Ambipar, que tiveram valorização de mais de 700% entre abril e outubro de 2024. A equipe técnica da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) levantou a suspeita de que fundos associados ao Banco Master e a Tanure teriam atuado para elevar artificialmente o valor de mercado da companhia.

O pagamento pela Emae foi feito com recursos obtidos por meio de debêntures e de um empréstimo da XP. Depois da aquisição, o caixa da empresa foi usado para comprar debêntures da Light e aplicar em Certificados de Depósito Bancário (CDBs) do Banco Master. Em janeiro de 2025, já com Tanure na presidência do Conselho de Administração da Emae, a empresa comprou R$ 160 milhões em CDBs do Letsbank, também ligado ao conglomerado do Banco Master.

Em outubro de 2025, Tanure não quitou o empréstimo contratado com a XP Investimentos. O banco executou a dívida e assumiu o controle da Emae. Mais tarde, sob a gestão de Carlos Piani, a Sabesp comprou a empresa do Fundo Phoenix.

Relações com a Sabesp

Em junho de 2024, Tanure e integrantes do Banco Master procuraram o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para discutir um empréstimo destinado à compra da Sabesp. Participaram das reuniões Tanure, Reinaldo Hossepian, diretor do Banco Master, e Karla Maciel, então assessora da área de fusões e aquisições da instituição.

No mês seguinte, a Equatorial Energia anunciou a aquisição de 15% das ações da Sabesp e tornou-se a única concorrente vencedora do processo de desestatização. Naquele período, Carlos Piani presidia o conselho da Equatorial. Ele havia sido presidente do conselho da Ambipar e assumiu a presidência da Sabesp em outubro de 2024.

A venda de 15% das ações da Sabesp movimentou R$ 6,9 bilhões, enquanto o processo captou aproximadamente R$ 15 bilhões. A companhia tinha lucros na ordem de R$ 56,2 bilhões. Em 13 de fevereiro de 2026, as ações chegaram a R$ 152,50, alta de aproximadamente 127% em relação ao preço da desestatização.

Outro ponto questionado envolve Karla Bertocco. Ela presidiu o Conselho de Administração da Sabesp antes de integrar o conselho da Equatorial, única interessada na compra da companhia. Bertocco também foi subsecretária de Parcerias e Inovação do Governo de São Paulo, presidente da Sabesp, diretora do BNDES e conselheira da Equatorial até dezembro de 2023.

Em julho de 2024, a federação PT-PCdoB-PV na Assembleia Legislativa de São Paulo encaminhou representação ao Ministério Público de São Paulo para pedir a apuração de possível conflito de interesses e dano ao interesse público. O documento, assinado pelo deputado estadual Paulo Fiorilo, afirma que Bertocco participou de reuniões em que foram discutidos temas relacionados à privatização.

Pedidos de apuração

Em março deste ano, o deputado estadual Antonio Donato protocolou representação no Ministério Público de São Paulo. O pedido questiona, entre outros pontos, o conhecimento do governo sobre a valorização das ações da Ambipar, a fiscalização do leilão da Emae, a concorrência na venda da Sabesp, o preço das ações e a posterior recompra da Emae.

As suspeitas poderiam caracterizar prejuízo ao patrimônio público se fossem comprovadas decisões com dolo ou culpa grave, como a venda de ativos abaixo do valor de mercado ou a compra de ativos artificialmente valorizados. O pedido ainda está em análise e não teve andamento até o momento.

No início de abril deste ano, o Supremo Tribunal Federal rejeitou duas ações que buscavam suspender a privatização da Sabesp. Os processos questionavam leis municipal e estadual relacionadas aos contratos de saneamento e à alienação de participação societária do Estado.

Respostas

A Sabesp afirmou que a compra da Emae foi aprovada por seu Conselho de Administração e analisada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). A companhia negou relação de Carlos Piani com o Fundo Phoenix e disse que ele deixou o conselho da Ambipar antes de assumir a presidência da Sabesp.

A empresa também negou conflitos de interesse envolvendo Karla Bertocco e afirmou que suas operações financeiras podem ser verificadas nas demonstrações financeiras auditadas e nos registros da CVM, da B3 e da Emae.

A Emae informou que, em dezembro de 2025, o juiz Fausto Dalmaschio Ferreira julgou improcedente uma ação popular sobre a venda de ações para a Equatorial. A sentença, datada de 3 de dezembro de 2025, descartou irregularidades ou conflito de interesses na atuação de Bertocco.

A Secretaria de Parcerias em Investimentos declarou que as desestatizações seguiram critérios técnicos, transparência e participação institucional. Sobre a Emae, afirmou que o leilão resultou em proposta 33,68% acima do preço mínimo e foi aprovado pelos órgãos reguladores. A pasta disse ainda que eventuais apurações sobre o mercado de capitais são atribuição da CVM.

Texto produzido pela Redação Mapa do Mercado com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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