SÃO PAULO — A percepção sobre o caso Banco Master varia de acordo com a preferência eleitoral. Entre os eleitores de Flávio Bolsonaro, 58% consideram que os políticos envolvidos são majoritariamente de esquerda, enquanto 9% apontam a direita. Entre os eleitores de Lula, o resultado se inverte: 48% identificam predominância da direita, ante 17% que citam a esquerda.
Os dados são da pesquisa Datafolha publicada em 18 de setembro. No conjunto da população, 34 % avaliam que a maioria dos políticos envolvidos é de esquerda. Outros 27% apontam a direita, 10% dizem que o grupo predominante é de centro e 13% respondem que todos estão envolvidos.
A leitura contrasta com a rede de relações atribuída a Daniel Vorcaro, do Banco Master, que reúne principalmente nomes do centrão e da direita. Entre os citados está Flávio Bolsonaro, formalmente investigado no inquérito do Supremo Tribunal Federal relacionado ao filme “Dark Horse”, que recebeu ao menos R$ 65 milhões de Vorcaro. O senador nega irregularidades nas transações.
No centrão, Ciro Nogueira (PP-PI) era próximo de Vorcaro e foi alvo de uma operação da Polícia Federal. A corporação suspeita que o senador tenha recebido uma mesada do banco para atuar em favor da instituição no Congresso. Nogueira afirmou que a ação tentou manchar sua honra. Na esquerda, Jaques Wagner (PT-BA) deixou a liderança do governo Lula no Senado depois de ser alvo de uma operação motivada por suspeitas de recebimento de vantagens indevidas do Master, o que ele nega.
Como os analistas explicam a percepção
Para especialistas ouvidos sobre o tema, a associação com a esquerda pode estar ligada à forma fragmentada de divulgação das informações, ao histórico de denúncias de corrupção em governos do PT e ao fato de o escândalo atingir o grupo que ocupa a Presidência. O cientista político Jorge Chaloub, da UFRJ, afirmou que, em casos complexos, parte do público recebe apenas manchetes, trechos ou conteúdos distribuídos em redes sociais.
Celso Rocha de Barros disse que as denúncias surgiram de forma gradual ao longo do ano, o que teria dificultado a formação de uma visão geral. Fernando Schüler, professor do Insper, afirmou que as revelações envolvendo o PT da Bahia ajudam a explicar a percepção do eleitorado. Para ele, a relação de Flávio Bolsonaro com o “Dark Horse” tem peso menor por se tratar de uma investigação ainda em curso.
Schüler também avaliou que as suspeitas contra líderes do centrão produzem menor efeito ideológico, porque o grupo não é associado a um campo político definido. Bruno Bolognesi, da UFPR, afirmou que quem ocupa o governo tende a concentrar a responsabilidade por problemas e denúncias.
A proximidade do governo Lula com Alexandre de Moraes, ministro do STF colocado no centro do inquérito, é outro fator citado pelos analistas. Moraes manteve conversas com Vorcaro e editou o contrato de cerca de R$ 130 milhões firmado entre o escritório de advocacia de sua mulher e o ex-banqueiro. Lula também foi cobrado pela oposição por ter recebido Vorcaro fora da agenda no Palácio do Planalto, em dezembro de 2024. O encontro foi organizado pelo ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, que atuou como consultor do Master.
Marcus André Melo, professor da Universidade Federal de Pernambuco, afirmou que Moraes e Dias Toffoli são associados ao PT. Ele também relacionou a percepção ao escândalo do INSS e à demora da campanha de Lula e da militância petista para reagir às revelações sobre Moraes e Vorcaro.
Segundo a pesquisa Quaest de 14 de setembro, a corrupção é o segundo tema mais importante para o eleitorado, atrás apenas da violência.








