MANAUS — Profissões, títulos, apelidos e referências a atividades comunitárias aparecem nos nomes de urna de candidatos nas eleições gerais deste ano. A escolha pode facilitar a identificação e a memorização, mas também provocar rejeição quando o eleitor percebe artificialidade ou incompatibilidade entre o nome e o cargo disputado.
Para o cientista político e professor da Uniasselvi Rafael Adílio dos Santos, esses nomes funcionam como atalhos cognitivos. Eles reduzem o esforço necessário para reconhecer o candidato em uma disputa com muitos concorrentes e sugerem, de forma imediata, sua área de atuação, seus valores ou sua ligação com determinado grupo social.
Entre as referências profissionais estão “doutor”, “doutora”, “enfermeira”, “professor”, “delegado” e “sargento”. Também aparecem nomes associados ao cotidiano e às comunidades, como “Zé do Bar”, “Chico da Padaria”, “Amanda Mototáxi”, “Mateus do TI”, “Rita da Enfermagem” e “Rosa das Comunidades”. Apelidos como “Sabugo”, “Curubão” e “Magrinha” seguem a mesma lógica de aproximação e reconhecimento.
Segundo Rafael, a estratégia tende a ter maior aderência em eleições proporcionais, como as disputas para deputado, nas quais nomes ligados à rotina das comunidades podem transmitir autenticidade e representatividade. O recurso, porém, pode ser menos eficaz em campanhas para o Poder Executivo, quando um apelido folclórico ou sem histórico social reconhecido passa a impressão de falta de gravidade institucional.
O Amazonas tem exemplos de candidatos eleitos com títulos e referências profissionais nos nomes de urna. Em 2022, Capitão Alberto Neto foi reeleito para a Câmara dos Deputados. Na Assembleia Legislativa do Amazonas, foram eleitos Comandante Dan, Dr. George Lins, Dra. Mayara Pinheiro, Professor Sinésio, Dr. Gomes, Cabo Maciel e Delegado Péricles.
A escolha também pode criar um personagem eleitoral, especialmente quando o rótulo ocupa espaço maior do que a trajetória, as propostas e a capacidade de gestão do candidato. Para Rafael, títulos como “doutor”, “professor”, “delegado”, “enfermeira”, “protetor” e “ativista” podem transferir à imagem política parte da credibilidade ou da autoridade associada à profissão ou à causa.
O efeito, contudo, é de via dupla: o nome ajuda a identificar representantes de segmentos específicos, mas pode induzir o eleitor a confundir prestígio profissional com competência para exercer um cargo político. A memorabilidade ainda é tratada como parte central da comunicação de campanha, por retirar o candidato do anonimato e colocá-lo entre as opções consideradas no momento do voto.
Rafael diferencia os apelidos já consolidados socialmente daqueles criados exclusivamente para a campanha. Os primeiros tendem a transmitir pertencimento e confiança por refletirem a vida do candidato no bairro, na profissão ou na comunidade. Os segundos podem chamar atenção e facilitar a lembrança, mas, se percebidos como uma jogada de marketing, também podem soar oportunistas e afastar votos.







