SÃO PAULO — A transformação de áreas industriais de Jurubatuba exige uma estratégia que vá além da abertura de terrenos para novos empreendimentos. O território reúne atividades produtivas, empregos qualificados, vulnerabilidades sociais e ambientais e um passivo de contaminação ainda pouco conhecido.
Estudo do IPT de 2025 registrou 384 poços cadastrados na região. Entre aqueles com histórico de análises, 27% apresentaram compostos organoclorados; em 13% dos casos, os níveis superaram os valores de intervenção. Uma parcela relevante dessas ocorrências estava ligada a poços de uso doméstico.
A configuração geológica aumenta a complexidade do problema. Em áreas com aquíferos fraturados, substâncias presentes no solo podem alcançar a água subterrânea e se deslocar por longas distâncias. Por isso, controlar o risco em um lote não garante a recuperação de todo o território nem interrompe necessariamente o avanço da contaminação.
Da remediação à regeneração
A Lei Estadual nº 13.577/2009 criou o Fundo Estadual para Prevenção e Remediação de Áreas Contaminadas — FEPRAC, voltado à proteção das funções do solo, à identificação de áreas contaminadas e à sua recuperação. A legislação, porém, não elimina a necessidade de uma abordagem territorial quando os impactos ultrapassam os limites de cada imóvel.
A regeneração de Jurubatuba deve incluir a recuperação da infiltração da chuva, a proteção das águas subterrâneas, a expansão da vegetação e da biodiversidade, a criação de corredores verdes e a melhoria da drenagem. Também precisa considerar a redução das ilhas de calor e a preparação para eventos climáticos extremos. Nesse modelo, a infraestrutura verde e azul deixa de ser complementar e passa a orientar a transformação urbana.
O PIU Arco Jurubatuba já considera condicionantes físico-ambientais, áreas contaminadas, vulnerabilidade social e a relevância da base produtiva. Esses elementos devem influenciar decisões sobre moradia, ocupação do solo, infraestrutura, áreas verdes e investimentos públicos. A substituição automática das atividades industriais por usos predominantemente imobiliários não atende à necessidade de combinar habitação, empregos, infraestrutura e recuperação ambiental.
Planejamento e governança
As decisões sobre o PIU e as Áreas de Intervenção Urbana precisam incorporar os efeitos acumulados de diferentes projetos. A Avaliação Ambiental Estratégica — AAE pode comparar cenários e reunir, em uma mesma análise, planejamento urbano, recursos hídricos, áreas contaminadas, infraestrutura e adaptação climática.
Uma política territorial para a região depende de três frentes: ampliar o conhecimento sobre fontes, plumas, poços e populações expostas; integrar informações de urbanismo, saúde pública, águas subterrâneas, drenagem e clima; e definir em quais locais a ocupação e o uso da água subterrânea são viáveis do ponto de vista ambiental e sanitário.
Também será necessário estabelecer prioridades de investigação e recuperação, regras para novos empreendimentos e captações, além de mecanismos de responsabilização e financiamento. A coordenação deve envolver Prefeitura, CETESB, órgãos de recursos hídricos, Ministério Público, universidades, empresas e sociedade civil.
A Praça Victor Civita, em Pinheiros, oferece um exemplo de requalificação de uma área contaminada que recebeu nova função pública e ambiental. Implantada no antigo Incinerador Pinheiros, a praça também mostra que a recuperação não termina com a conclusão da obra: manutenção e governança contínuas são necessárias para preservar os resultados.
Atualmente, o espaço integra a área analisada pela Prefeitura no projeto chamado Hub Pinheiros. O procedimento prevê uma parceria com o setor privado para a praça e áreas públicas próximas, com equipamentos como hub de inovação, arena esportiva e edifício-garagem. A escala e os efeitos dessas atividades exigem avaliação cuidadosa, considerando a função pública e ambiental que fundamentou a recuperação do local.
Para Jurubatuba, a principal implicação é que a recuperação de um imóvel não deve ser confundida com a regeneração do território. A gestão pública precisa acompanhar a contaminação para além das divisas dos lotes e orientar a transformação urbana por uma estratégia integrada, capaz de proteger água, solo, vegetação, biodiversidade e resiliência climática.







