NOVA YORK, EUA — A defesa da soberania nacional deve ocupar espaço central no discurso de Lula na Assembleia-Geral da ONU, em meio à pressão na relação entre Brasil e Estados Unidos e à proximidade das eleições brasileiras. O presidente desembarca em Nova York neste domingo (20) para uma passagem curta pelo país.
A fala está prevista para terça-feira (22) e deve defender o princípio da não intervenção nos assuntos internos dos países. Lula também deverá sustentar que decisões políticas, judiciais e eleitorais brasileiras devem ser tomadas sem pressão externa. A orientação é abordar o tema de forma ampla, sem fazer um ataque nominal ao governo americano.
Discurso e possível contato com Trump
O presidente abrirá tradicionalmente a sequência de discursos dos chefes de Estado no evento, que reúne representantes dos 193 países-membros das Nações Unidas. Na sequência, falará Donald Trump, presidente do país anfitrião.
A ordem pode criar uma oportunidade de contato entre os dois nos bastidores, embora não exista reunião formal prevista. Em setembro de 2025, os presidentes conversaram por cerca de 40 segundos antes do discurso do americano. O encontro abriu caminho para a retomada do diálogo entre os governos após meses de atritos.
Nos dias seguintes, representantes dos dois países ampliaram as conversas sobre o tarifaço aplicado a produtos do Brasil, além de sanções financeiras e restrições de vistos. Um ano depois, porém, a relação bilateral voltou a ficar sob pressão.
Temas da campanha e agenda em Nova York
As eleições brasileiras estão marcadas para 4 de outubro. O governo demonstrou preocupação com possíveis manifestações ou medidas americanas que possam repercutir na campanha, enquanto busca evitar uma nova escalada diplomática antes da votação.
O discurso de Lula deve durar em torno de 20 minutos, segundo previsões iniciais da equipe. Além da soberania, o presidente deverá abordar o combate ao crime organizado, a emergência climática e a fome. A abordagem sobre segurança será diferente da adotada atualmente pelos Estados Unidos na América Latina.
Nesta segunda (21), Lula tem encontro marcado com Zohran Mamdani, prefeito de Nova York. Auxiliares negam que a reunião, realizada a convite do prefeito, possa enviar um sinal negativo a Trump. Mamdani é descrito como a figura pública com maior capacidade de antagonizar o presidente americano, embora não possa disputar a Presidência por não ter nascido em solo americano.
Outros pontos de tensão
Entre os atritos recentes estão novas disputas comerciais, divergências sobre o combate ao crime organizado e a classificação de facções brasileiras. Também houve a revogação do visto da embaixadora em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, em meio à demora do governo brasileiro para conceder o agrément ao indicado para a embaixada americana em Brasília.
A viagem ocorre ainda após a desistência, no sábado (19), de Michelle Bachelet da campanha para a Secretaria-Geral da ONU. A candidata patrocinada pelo Brasil apresentava mau desempenho nas votações secretas do Conselho de Segurança e, na última votação, ficou claro que era vetada por ao menos um dos cinco membros permanentes da organização. António Guterres deixará o cargo após dez anos.







