A prisão de Fernando Cerimedo na Bolívia abriu investigações sobre sua atuação política, financeira e digital em diferentes países da América Latina. O argentino de 45 anos foi detido em 18 de agosto, em Santa Cruz, um dia depois de sua companheira, a advogada Nadia Beller, ser baleada por homens disfarçados de entregadores de comida.
Beller sobreviveu a três tiros, afirmou estar grávida e acusou Cerimedo de planejar o ataque para impedir que ela revelasse informações sobre sua relação com o poder boliviano. Ele é investigado por tentativa de feminicídio, e a Justiça decretou sua prisão por seis meses. Seus advogados negam que existam provas que o liguem ao atentado.
Mensagens e novas acusações
Um relatório do Ministério Público cita mensagens encontradas no telefone de Cerimedo. Uma delas informa: “Irmão, nesse momento atiraram nela”. Outra, arquivada como nota de texto, pergunta: “Ou a eliminamos já ou estamos ferrados. Você conhece alguém que possa fazer o trabalho?”.
No dia seguinte ao ataque, Beller falou no hospital e acusou o companheiro de agressão física e de cumplicidade com narcotraficantes. “Se eu não der esta declaração, porque o que ele quer é me calar, eles vão vir e vão terminar de me matar”, afirmou.
Uma busca em um imóvel de Cerimedo em La Paz encontrou o equivalente, em espécie, a 43.000 dólares, ou R$ 219.183. O caso resultou em investigações por enriquecimento ilícito e lavagem de dinheiro. Ele recebeu uma segunda prisão preventiva e foi transferido de Santa Cruz para La Paz.
Beller também o acusou de facilitar a liberação de aviões de pequeno porte apreendidos. A denúncia deu origem a outro processo, por suposta proteção ao narcotráfico.
Relação com o governo
A advogada, de 33 anos, disse ter testemunhado supostos atos de corrupção envolvendo Rodrigo Paz, sua esposa e a família política do presidente. As acusações citam a gestão estatal de combustíveis e contratos públicos de seguros, com Cerimedo apontado como operador.
Paz assumiu o mandato em novembro e afirmou que “nunca houve uma relação de trabalho direta” com Cerimedo. O presidente reconheceu, porém, que ele ajudou em sua campanha e no início do governo. Beller divulgou fotos e mensagens para contestar essa versão, incluindo uma imagem de Cerimedo ao lado de Paz e do chanceler boliviano em uma reunião oficial com Marco Rubio.
Presença em campanhas e redes digitais
Cerimedo participou das campanhas de Paz, Javier Milei, na Argentina, Jair Bolsonaro, no Brasil, e Nasry Asfura, em Honduras. No Brasil, foi investigado por suposta participação em uma milícia digital voltada a contestar a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva em 2022.
Promotores bolivianos encontraram na residência dele dispositivos que aparentavam formar uma fazenda de bots para operar contas anônimas em redes sociais. No Chile, há uma investigação por supostos crimes informáticos relacionados à campanha do plebiscito constitucional de 2020.
No México, Claudia Sheinbaum afirmou que o jornal conservador fundado por Cerimedo era um esquema para difundir notícias falsas. Ele também esteve no Peru durante a posse de Keiko Fujimori, em julho, mas ela negou qualquer vínculo.
Para Marcela Ríos, diretora regional da IDEA Internacional, o caso mostra que as redes de grupos de extrema direita têm conexões transnacionais. A cientista política Daniela Osorio Michel afirmou que Cerimedo encontrou espaço no poder boliviano em meio à falta de organização e institucionalidade ao redor de Rodrigo Paz.








