SÃO PAULO — O reajuste de 15% do Bolsa Família, que elevará o repasse mínimo de R$ 600 para R$ 691 por família, dividiu economistas sobre o efeito nas contas públicas. O governo estima custo adicional de R$ 5,8 bilhões em 2026 e de R$ 22,7 bilhões em 2027.
Os valores não eram corrigidos desde a reformulação do programa, em março de 2023. O anúncio ocorreu nesta quinta-feira (17), às vésperas do primeiro turno das eleições.
Avaliações sobre as metas fiscais
Felipe Salto, economista-chefe da Warren, considera que o reajuste respeita a Lei de Responsabilidade Fiscal e a Lei Eleitoral. “Não se trata de conceder benefício novo, mas de neutralizar a perda nominal”, afirmou.
Em relatório assinado por Salto, Josué Pellegrini e Daniel Ferraz, a Warren avaliou que o impacto adicional pode ser absorvido sem comprometer a meta fiscal zero de 2026. A análise considera que algumas despesas obrigatórias estão superestimadas nas projeções oficiais, especialmente os benefícios previdenciários, que ficaram abaixo do esperado nos últimos meses.
O cenário, porém, seria mais difícil em 2027. Na avaliação da equipe, o governo precisará melhorar o resultado primário — a diferença entre receitas e despesas antes do pagamento dos juros da dívida — para cumprir a meta fiscal do período.
A Warren calcula que o intervalo inferior da meta de 2027 prevê superávit de R$ 36,6 bilhões, ante a meta zero de 2026. Também considera a promessa de um superávit efetivo, sem desconto de despesas, de R$ 18,6 bilhões. Com impacto anual projetado de R$ 23,2 bilhões do reajuste, o cumprimento desses objetivos se torna mais difícil, segundo o relatório.
José Márcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos, afirmou que a questão fiscal é um dos principais pontos da medida. “A medida deve exigir um crédito extraordinário para financiamento fora do arcabouço fiscal”, disse.
Cristiane Quartaroli, economista-chefe do Ouribank, avaliou que o benefício pode afetar o consumo por ser direcionado a famílias de menor renda. Para ela, contudo, a principal preocupação está na percepção sobre a trajetória dos gastos públicos. Se o reajuste for pontual, estiver previsto no Orçamento e não vier acompanhado de novas despesas, o impacto tende a ser limitado. A percepção de risco aumentaria caso a medida sinalize outros gastos.
Críticas do setor industrial
A Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) criticou o reajuste por ampliar as despesas públicas e ocorrer em período eleitoral. João Gabriel Pio, economista-chefe da entidade, afirmou que a política social deve ser acompanhada de responsabilidade fiscal e que a falta de clareza sobre o financiamento de despesas permanentes pode resultar em maior endividamento, juros elevados, crédito mais caro e menor capacidade de investimento.
Pio também afirmou que decisões fiscais voltadas ao curto prazo podem produzir efeitos além das eleições.
Em 2022, o governo de Jair Bolsonaro, do PL, havia ampliado os valores do programa, então chamado Auxílio Brasil, a poucos meses da eleição. Em agosto daquele ano, o repasse mínimo passou de R$ 400 para R$ 600, alta de 50%, acompanhada da promessa de tornar o valor permanente.
A Confederação Nacional da Indústria e a Confederação Nacional do Comércio informaram que não comentariam. A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, a FecomercioSP e a Associação Brasileira de Supermercados também foram procuradas e não responderam até a publicação.







