O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Master, pediu ajuda a Paulo Sérgio Neves de Souza para tentar impedir mudanças nas regras de investimentos de fundos de previdência. À época, Paulo Sérgio era chefe-adjunto do Departamento de Supervisão Bancária do Banco Central (BC).
A alteração poderia afetar a estratégia do Master de vender letras financeiras a regimes de previdência complementar de servidores públicos. As informações estão em relatório da Polícia Federal enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF). A divulgação dos documentos foi determinada pelo ministro André Mendonça, a pedido de Edson Fachin, presidente da Corte.
Em 24 de maio de 2024, Vorcaro escreveu que precisava de “ajuda do Bacen num tema”. Segundo a PF, ele relatou que grandes bancos atuavam na Superintendência Nacional de Previdência Complementar (Previc) para retirar instituições classificadas como S3 de uma lista de investimentos institucionais.
O grupo Master era enquadrado pelo regulador como um conglomerado de crédito diversificado, de pequeno porte e pertencente ao segmento S3 da regulação prudencial. Seus ativos correspondiam a 0,1% a 1% do Produto Interno Bruto, enquanto sua participação era de 0,57% do ativo total e 0,55% das captações totais do sistema financeiro nacional.
Vorcaro afirmou que a mudança, combinada com uma nova regra do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), prejudicaria os negócios do banco. Dezoito entidades de previdência aplicaram R$ 1,87 bilhão em letras financeiras do Master. Essas aplicações representavam até 20% do patrimônio de regimes de previdência de estados e municípios e não tinham garantia do banco.
Entre os maiores investidores estavam o Rioprevidência, responsável pelas aposentadorias e pensões dos servidores do estado do Rio, com R$ 970 milhões; a Amprev, do Amapá, com R$ 400 milhões; e o Iprev de Maceió, com R$ 97 milhões.
“Isso aliado à nova regra do FGC é uma grande sacanagem e atrapalha muito”, escreveu Vorcaro. A PF classificou o episódio como um pedido para que Paulo Sérgio interviesse junto ao BC em defesa dos interesses do banqueiro.
O diálogo reproduzido no relatório mostra Paulo Sérgio dizendo que seria necessário acompanhar a publicação dos atos relacionados ao tema e verificar o enquadramento do Master. Para a PF, as mensagens integram um conjunto que indica a atuação do ex-diretor como consultor informal de Vorcaro dentro do Banco Central.
Paulo Sérgio foi diretor de Fiscalização do BC entre 2017 e 2023 e depois assumiu a chefia-adjunta do Departamento de Supervisão Bancária. As conversas analisadas pela PF começaram em outubro de 2023 e também trataram de operações envolvendo empresas do conglomerado, como Voiter, Will Bank e Letsbank.
O relatório cita ainda Belline Santana, então chefe do Departamento de Supervisão Bancária. Segundo a PF, ele teria prestado consultoria a Vorcaro, discutido documentos do Master e criado, em 2 de outubro de 2025, um grupo com o banqueiro e Paulo Sérgio para facilitar a comunicação entre os envolvidos.
A investigação também aponta que Vorcaro teria custeado viagens, jantares internacionais e pagamentos aos dois servidores. Entre os deslocamentos mencionados estão uma viagem de Belline com a esposa para Paris e outra de Paulo Sérgio para a Disney, nos Estados Unidos.








