SÃO PAULO — A alta de preços de serviços e despesas associadas ao consumo da classe média pode influenciar a avaliação dos governos nas eleições deste ano, mesmo com a inflação brasileira dentro do teto da meta, de 4,5% ao ano. Entre os itens que mais contribuíram para o IPCA nos últimos 12 meses estão plano de saúde, passagem aérea, gasolina, ensino fundamental, empregado doméstico e perfume.
Os dez produtos e serviços mais relevantes nesse cálculo responderam por mais de 2,1 pontos percentuais dos 4,4% acumulados pelo índice em 12 meses. O IPCA de agosto de 2026 será divulgado nesta sexta-feira (11).
Peso no orçamento altera o impacto da inflação
A contribuição de cada item para o índice depende de dois fatores: a variação de preço e o peso do produto na cesta de consumo das famílias. Essa cesta é definida com base na Pesquisa de Orçamentos Familiares, realizada por amostragem pelo IBGE para identificar os hábitos de consumo da população.
O bacalhau, com alta de 15,19%, e o console de videogame, que subiu 13,18%, tiveram aumentos superiores aos da energia elétrica residencial, cuja alta foi de 8,85%. Como têm peso menor no orçamento, porém, exerceram menos influência sobre o IPCA. A energia liderou o ranking por ocupar uma parcela maior da cesta.
A passagem aérea teve peso relativamente baixo, mas registrou alta de quase 42%, suficiente para compensar essa menor participação. Além de energia elétrica residencial e passagem aérea, a lista dos dez itens inclui gasolina, plano de saúde, aluguel residencial, empregado doméstico, refeição fora de casa, ensino fundamental, lanche fora de casa e perfume.
Renda, consumo e aprovação do governo
Para Lucio Rennó, professor da Universidade de Brasília, a maioria desses gastos integra a rotina da classe média. A perda da capacidade de consumo e do padrão de vida pode alimentar insatisfação social e política, especialmente porque essa cesta tem maior participação de serviços e despesas cotidianas do que a dos grupos de menor renda, mais concentrada em itens básicos.
“Esses itens ajudam a entender o mau humor da classe média com o PT”, afirmou Rennó. Ele citou o plano de saúde como um gasto central e disse que parte desse grupo percebe que arca com o custo de políticas distributivas destinadas às camadas mais vulneráveis sem receber contrapartidas equivalentes em serviços públicos ou estabilidade econômica.
Janaína Feijó, economista do Ibre da FGV, afirmou que o salário é o indicador mais relacionado à aprovação de um governo. A renda nominal, no entanto, pode perder poder de compra diante do custo das dívidas e da alta de preços.
Frederico Batista Pereira, professor da Universidade da Carolina do Norte em Charlotte, nos EUA, disse haver correlação entre a variação do IPCA e a aprovação presidencial, mas avaliou que essa relação talvez não seja suficiente para produzir um efeito político mensurável ou determinante. A popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, segundo ele, está relativamente baixa em comparação com a de outros presidentes, mesmo considerando apenas esse fator.
Pressões específicas sobre o eleitorado
Batista Pereira considera pertinente analisar os dados por faixa de renda. O grupo entre dois e cinco salários mínimos, que reúne parte relevante do eleitorado disputado no Sudeste, seria mais sensível a essa pressão. A região é estratégica para a candidatura de Lula.
Benjamin Rosenthal, professor da FGV, afirmou que não considera tão grande, isoladamente, a importância desses aumentos. Para ele, também é necessário observar mudanças na composição dos gastos, como a expansão das bets, que passaram a ocupar espaço no orçamento em um cenário de preços relativamente controlados.
Nesse quadro, a frustração não dependeria apenas da inflação de itens importantes, mas também da falta de dinheiro para consumi-los e do surgimento de novas despesas. Rosenthal ressaltou, porém, que a inflação não aparece entre as três principais preocupações do eleitorado em levantamentos de opinião pública, atrás de segurança pública e saúde.







