Quando vieram a público suas conversas comprometedoras com Daniel Vorcaro, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência, procurou a imprensa para apresentar sua versão. Em entrevista, minimizou o áudio em que cobrava dinheiro de Vorcaro para financiar Dark Horse, cinebiografia de seu pai. Já perto do fim da conversa, afirmou também que o banqueiro não destinava nenhum dólar ao filme havia meses, desde que as suspeitas sobre as fraudes do Master começaram a ser divulgadas. “Olha só. O último pagamento que ele fez [...] foi em maio de 2025”, declarou.
A afirmação, porém, não correspondia aos registros. Reportagem publicada neste mês mostra que, em 16 de setembro de 2025, Vorcaro enviou outra parcela, de 1,6 milhão de dólares, ao Havengate Development Fund, fundo americano responsável por administrar o dinheiro de Dark Horse. O valor exato da transferência foi de 1 milhão, 666 mil e 667 dólares. A informação aparece em um relatório do Coaf, órgão responsável pela fiscalização de transações financeiras. O documento indica que a relação de apoio financeiro entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro se estendeu por período muito maior do que o senador reconheceu.
A transferência ocorreu oito dias depois de Flávio enviar uma mensagem ao banqueiro para cobrar parcelas em atraso. Com esse repasse, até então desconhecido, o montante destinado por Vorcaro à cinebiografia de Bolsonaro subiu de 10,6 para 12,3 milhões de dólares. Pela cotação vigente naquele período, a quantia correspondia a mais de 65 milhões de reais.
Também existem indícios de uma transferência posterior, feita depois de uma nova cobrança de Flávio. Na manhã de 22 de outubro, no terceiro dia das filmagens, o senador voltou a procurar Vorcaro. Às 8h54, escreveu: “Bom dia, mermão! Já estamos no terceiro dia de gravação. Estamos no limite.” Nove minutos depois, insistiu que, caso não fosse possível liberar o dinheiro, buscaria outro caminho. Às 9h22, Vorcaro respondeu que iria verificar a situação imediatamente.
A cobrança produziu resultado. Conversas por WhatsApp entre Daniel Vorcaro e o publicitário Thiago Miranda, que participou da captação de recursos para o filme, mostram que Miranda enviou uma mensagem ao banqueiro menos de 1 hora depois das mensagens de Flávio, perguntando se ele conseguiria liberar as parcelas. Em seguida, alertou que, sem o pagamento, a produção seria interrompida. Vorcaro respondeu: “Sim. Liberei mais uma hoje”. Miranda disse que avisaria os responsáveis e acrescentou que Flávio pretendia telefonar. O banqueiro pediu então que Miranda apresentasse a Flávio suas desculpas pelos “atrasos” nas parcelas. Caso esse novo pagamento de 1,6 milhão de dólares tenha sido efetivamente realizado, como afirmou Vorcaro, o total desembolsado por ele alcançará 14 milhões de dólares, equivalentes a 72 milhões de reais.
O acordo e as parcelas
Com base nas informações já conhecidas, o acordo estabelecido entre o banqueiro e o candidato à Presidência previa pagamentos de 24 milhões de dólares. Considerando a transferência de setembro, chega a sete o número de parcelas reconhecidamente pagas por determinação de Daniel Vorcaro em atendimento a Flávio Bolsonaro. O possível repasse de outubro representaria a oitava parcela.
Questionado sobre o motivo de ter omitido que sua relação financeira com o banqueiro havia se prolongado praticamente por todo o ano de 2025 e sobre o total desembolsado, Flávio Bolsonaro não quis se manifestar. Sua assessoria afirmou que a produtora do filme deveria ser procurada para esclarecer a existência de outros pagamentos. Diante da informação de que a nova parcela revelava uma declaração pública falsa do candidato, a assessora manteve o entendimento de que Flávio não teria nada a explicar.
Não foi a primeira vez que o senador apresentou uma versão incompatível com os registros no caso Dark Horse. Em março passado, depois que se tornou público que seu número de telefone estava na agenda de Vorcaro, Flávio declarou que nunca havia mantido contato com o dono do Master. Ao ser questionado sobre o motivo de o filme ter sido financiado por Vorcaro, respondeu que a informação era falsa e perguntou de onde ela havia sido obtida.
Na mesma entrevista, Flávio afirmou que o Havengate era fiscalizado pela SEC, órgão americano equivalente à Comissão de Valores Mobiliários no Brasil. A afirmação também não procede. Ele disse ainda que o fundo havia sido encerrado assim que surgiram as primeiras suspeitas sobre os negócios de Vorcaro. Os registros fazendários do Texas, entretanto, mostram que o fundo continua ativo até hoje.
O caminho dos recursos
A polícia investiga agora o percurso do dinheiro. Os recursos não eram enviados diretamente pelas empresas de Vorcaro nem depositados na conta da produtora do filme, a Go Up Entertainment llc, nos Estados Unidos, como ocorreria no fluxo habitual. Em vez disso, o banqueiro encaminhava os valores por meio do doleiro Antonio Freixo Junior, conhecido como “Mineiro”, dono da Entre Investimentos e Participações. Freixo já se apresentou publicamente como especialista em “câmbio de saída, que é uma coisa mais arriscada”. O destino das remessas era o Havengate, fundo sediado no Texas e administrado por Paulo Calixto, advogado especializado em imigração, sem atuação na área cinematográfica e amigo de Eduardo Bolsonaro, que também mora no Texas.
Como o Havengate fazia os pagamentos à produtora, a investigação procura determinar se todo o dinheiro realmente era destinado à produção cinematográfica. Os policiais apuram se parte dos recursos permaneceu no fundo ou terminou nas mãos de Eduardo Bolsonaro, que passou a viver nos Estados Unidos em fevereiro do ano passado. Por coincidência, esse foi o mesmo mês e ano em que Vorcaro começou a enviar ao Havengate as parcelas relacionadas ao filme. A primeira remessa, no valor de 2 milhões de dólares, foi feita em 13 de fevereiro de 2025.
Até o momento, não há provas de que uma parcela dos milhões enviados por Vorcaro tenha sido desviada para financiar a permanência de Eduardo nos Estados Unidos. Ainda assim, os investigadores buscam esclarecer melhor qual era a função desempenhada por ele em relação aos recursos. Quando o áudio de Flávio veio a público em maio passado, Eduardo diminuiu sua participação na produção. Em entrevista, afirmou apenas que havia investido 50 mil dólares do próprio dinheiro no filme para assegurar a contratação do diretor, mas que o valor foi devolvido depois.
Na documentação americana relativa ao filme, porém, Eduardo aparece ora como “produtor executivo”, ora como “financiador”. A investigação pretende definir até que ponto ele controlava os recursos mantidos na conta do Havengate. A pergunta foi encaminhada à Go Up, mas não houve resposta objetiva. Na prática, o caso envolve duas caixas-pretas: a produção do filme e o fundo.







