BRASÍLIA — A campanha de Flávio Bolsonaro à Presidência enfrenta um novo obstáculo após a divulgação de conversas nas quais o senador cobra de Daniel Vorcaro a liberação de recursos para um filme sobre Jair Bolsonaro. A produção teria recebido ao menos R$ 61 milhões no ano passado, dentro de um acordo que chegaria a R$ 134 milhões.
Flávio nega ilegalidades e afirma que buscava patrocínio privado para um filme privado sobre o pai. O senador também diz que não ofereceu vantagens, não promoveu encontros fora da agenda, não intermediou negócios com o governo e não recebeu dinheiro ou benefício.
Vorcaro está preso e negocia um acordo de delação premiada com potencial para atingir altas autoridades. A proximidade com o banqueiro se soma a acusações antigas contra Flávio, relacionadas a um suposto esquema de rachadinha em seu gabinete na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) e a vínculos com Adriano da Nóbrega. O senador nega as acusações e afirma ser alvo de perseguição política.
Estratégia de moderação
Flávio tenta se apresentar como uma alternativa ao estilo e às posições mais extremas de Jair Bolsonaro, preservando o eleitorado do pai e atraindo pessoas que rejeitam esse perfil. Em vídeo divulgado nas redes sociais, sua esposa, Fernanda, afirmou que ele era um Bolsonaro moderado. O senador também destacou que tomou vacina, em contraponto à postura do ex-presidente durante a pandemia de covid-19.
Para Yuri Sanches, diretor de risco político da AtlasIntel, o senador precisa reduzir a rejeição associada ao sobrenome e às acusações de corrupção enquanto constrói uma imagem de gestor diferente do pai. Na avaliação de Sanches, o episódio envolvendo Vorcaro interrompe esse esforço.
A campanha investiu em publicações sobre Carnaval, feminicídio, creches e figuras históricas da defesa dos direitos das mulheres. A estratégia também busca diferenciá-lo de declarações e comportamentos associados ao ex-presidente.
Pesquisas internas da campanha indicaram avanço entre jovens, integrantes da classe média e mulheres. Levantamentos do instituto Quaest apontaram que, de dezembro a maio, Flávio chegou a 45% contra 38% de Luiz Inácio Lula da Silva entre eleitores de 16 a 34 anos. Entre pessoas com renda entre 2 e 5 salários-mínimos, marcou 44%, ante 40% de Lula. Entre as mulheres, passou de 31% para 36%, ainda atrás do petista, com 45%.
Acusações anteriores
Flávio foi deputado estadual no Rio de Janeiro de 2003 a 2018. Em 2020, o Ministério Público afirmou que 12 funcionários fantasmas receberam R$ 6,1 milhões e que parte dos recursos teria sido repassada a Fabrício Queiroz, então chefe de gabinete. A denúncia também mencionou pagamentos em dinheiro vivo e despesas da família.
O senador sustenta que Queiroz tinha autonomia para contratar informalmente pessoas que atuavam em atividades de apoio parlamentar. Flávio afirma que nunca respondeu criminalmente pelo caso. A investigação foi afetada por decisões judiciais que anularam provas e relatórios financeiros. O Ministério Público do Rio de Janeiro informou que o caso foi encerrado após decisão do ministro Gilmar Mendes, em fevereiro de 2025.
As suspeitas sobre milícias envolvem homenagens feitas por Flávio a Adriano da Nóbrega, em 2003 e 2005, e a permanência da mãe e da então esposa do ex-policial em seu gabinete. Flávio afirma que não conhecia as acusações contra os policiais quando os homenageou e que não pode ser responsabilizado por mudanças posteriores na conduta de pessoas com quem teve contato.
Disputa pelo eleitorado
O PT procura apresentar Flávio como integrante da mesma corrente política do pai. Um vídeo divulgado por Lindbergh Farias o classificou como de extrema-direita e citou declarações do senador sobre a possibilidade de uso da força para garantir anistia ou indulto a Jair Bolsonaro, caso o Supremo Tribunal Federal considerasse a medida inconstitucional.
Dentro da direita, a estratégia também enfrenta resistência. Janaína Paschoal criticou a atuação de Flávio durante a sessão que barrou a indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal e afirmou que ele não seria moderado, mas fraco.
Sanches avalia que Flávio se consolidou entre eleitores bolsonaristas e antipetistas, mas ainda disputa uma parcela de 10% a 12% do eleitorado sem alinhamento automático com os polos da política. Esse grupo, segundo ele, costuma decidir mais perto da eleição. A campanha terá de preservar a identificação com a direita e, ao mesmo tempo, responder às acusações que voltaram ao centro do debate após o caso Vorcaro.








