SÃO PAULO — A prisão do ex-vereador Milton Leite (União Brasil) foi determinada após recurso do Ministério Público à 8ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo. A decisão menciona mensagens apreendidas e depoimentos de policiais militares que o relacionariam à Transwolff, empresa investigada na Operação Fim da Linha.
A primeira instância havia rejeitado o pedido de prisão contra Milton e outros 12 dos 16 investigados. Nas representações apresentadas pela Polícia Civil e pelo Ministério Público, não aparecem pagamentos nem vínculos societários do ex-vereador com as empresas ou pessoas sob investigação. Os documentos somam 570 páginas.
Mensagens sobre a UPBus
O nome de Milton aparece em áudios trocados em 11 de julho de 2024 por José Daniel Satilite, sócio da empresa de ônibus Translider, e um advogado. A conversa tratava da possível substituição da UPBus nas concessões de linhas da capital paulista depois da Operação Fim da Linha, deflagrada em abril de 2024 para investigar a infiltração do PCC no transporte coletivo por ônibus da cidade de São Paulo.
Satilite afirmou que a negociação envolveria Milton Leite. Segundo a Promotoria, tanto o empresário quanto o advogado Milton Milreu são suspeitos de integrar o PCC. Quatro dias depois, em novo áudio, Satilite disse que um representante se encontraria com Levi dos Santos Oliveira, então presidente da SPTrans, e voltou a mencionar a possível participação do ex-vereador nas conversas.
“Vou me entregar em 24 horas”, afirmou Milton na manhã desta quinta (17), por telefone. Ele disse estar fora de São Paulo, negou estar foragido e rejeitou qualquer vínculo com o PCC. Não foi localizado em casa.
Depoimentos divergentes
A decisão também cita relatos de policiais segundo os quais Milton seria o dono de fato da Transwolff. Em interrogatório prestado em fevereiro de 2026, o policial militar Alexandre Aleixo Romano Cezário declarou que os diretores formais atuariam como “laranjas”. O militar, porém, disse que apenas ouvia essa informação e não tinha provas.
Cezário teve a prisão preventiva mantida em processo no qual é acusado de integrar um esquema de segurança privada prestada à Transwolff e a seus dirigentes. Já o capitão Alexandre Paulino Vieira afirmou desconhecer qualquer relação de Milton ou de familiares dele com a empresa. Também negou ter recebido determinações do ex-parlamentar relacionadas a empresas de transporte.
Outra mensagem, de 18 de agosto de 2023, foi inicialmente atribuída ao sargento reformado Nereu Aparecido Alves. O texto, enviado a Cícero de Oliveira, dirigente da Transwolff, mencionava a inauguração de uma escola batizada com o nome da mãe do “chefe Milton”. Investigadores relacionaram a referência ao Centro de Educação Infantil Nathalia Pereira da Silva.
Em depoimento de 19 de fevereiro de 2026, Nereu negou ter escrito a mensagem e disse que não esteve na inauguração. Segundo ele, o texto foi redigido pelo capitão Alexandre Paulino Vieira e encaminhado a Cícero.
O Ministério Público afirmou que Milton foi mencionado nominalmente no material da investigação e o apontou como verdadeiro dono da Transwolff. A Promotoria também registrou preocupação de Satilite em informá-lo sobre os fatos envolvendo a UPBus e reproduziu trecho da representação policial que cita relações entre crime organizado, pessoas do círculo político e servidores públicos.







