A polícia sul-africana investiga uma rede de laboratórios de metanfetamina ligada ao cartel de Sinaloa e voltada aos mercados da Austrália e da Nova Zelândia. Um dos centros identificados funcionava em Swartruggens, povoado rural localizado a duas horas e meia de Johannesburgo. O local foi desmantelado em maio e tinha capacidade para produzir cinco toneladas da droga por mês.
Segundo as autoridades, esse volume equivaleria a mais de 1 bilhão de dólares (R$ 5,1 bilhões) em vendas no atacado na Austrália. Os preços da metanfetamina nesses dois países são entre 65 e 100 vezes superiores aos praticados nos Estados Unidos.
Devon Naicker, chefe da unidade de combate aos entorpecentes da África do Sul, afirmou que os investigadores verificam se uma carga apreendida na Austrália neste ano saiu de Swartruggens. O produto teria passado pelo porto de Durban, na costa leste sul-africana, e apresentava uma forma de acondicionamento semelhante à observada na instalação.
A polícia australiana confirmou que identificou aumento do interesse de cartéis mexicanos pelo mercado de drogas ilícitas do país, mas não comentou operações específicas envolvendo grupos mexicanos na África do Sul. Em janeiro, uma mulher de 32 anos foi presa no aeroporto de Sydney, em voo procedente da África do Sul, com 39 quilos de metanfetamina em pó na bagagem.
Estrutura e operação dos laboratórios
A polícia sul-africana descobriu sete laboratórios no sul da África nos últimos dois anos. Desde 2024, 16 mexicanos foram detidos no país. O primeiro laboratório com características semelhantes havia sido localizado em 2020, em Marble Hall, ao nordeste de Johannesburgo.
Na operação de Swartruggens, 13 pessoas foram presas. Cinco eram mexicanos com formação em química. Eles teriam chegado em março de 2025, usando vistos de turista válidos por três meses, e iniciado a fabricação pouco depois. Também foram detidos dois moçambicanos, um zimbabuano e quatro sul-africanos. Três dos sul-africanos pertenciam à família africâner proprietária da reserva de caça onde a estrutura funcionava.
A polícia afirmou que os laboratórios costumam ser instalados em propriedades isoladas, mas próximas das principais estradas. A família havia comprado a propriedade em 2024. Os pais respondiam a um processo relacionado ao aluguel de terrenos usados para produzir mandrax, um sedativo hipnótico destinado ao mercado local.
Os investigadores disseram que o cartel utiliza o método P2P, baseado no composto fenil-2-propanona e em produtos químicos importados da China e da Índia. Naicker explicou que a operação exige entregas contínuas de insumos e a retirada rápida da droga produzida. O cheiro gerado pela fabricação dos precursores pode ser percebido a quilômetros de distância, conforme a direção do vento.
Em agosto, a polícia apreendeu cinco toneladas de solventes, catalisadores e reagentes em uma operação na fronteira com o Zimbábue, realizada com apoio dos Estados Unidos. Antes disso, um contêiner que entrou pelo porto de Durban levou os investigadores a cinco galpões com produtos químicos e equipamentos em Midrand, entre Pretória e Johannesburgo.
No início deste mês, outro laboratório de escala industrial foi desmantelado em Klipvoor, a cerca de três horas ao norte de Johannesburgo. Tanques com capacidade para várias centenas de litros foram apontados como indício de envolvimento de cartéis. A polícia também afirmou que mexicanos com posição superior na organização instalam as unidades e deixam químicos encarregados da produção ou treinam moradores locais para operar os laboratórios.
Conexões com Nigéria e Moçambique
Um padrão semelhante foi identificado na Nigéria, onde quatro mexicanos foram detidos neste ano em operações contra laboratórios de metanfetamina. Em maio, as autoridades desmontaram o maior laboratório desse tipo já encontrado no país, em uma área rural do estado de Ogun. Três mexicanos e sete nigerianos foram presos. Outro mexicano foi detido em junho, no estado de Oyo.
Femi Babafemi, porta-voz da Agência Nacional de Combate às Drogas, afirmou que a escala das instalações indicava produção para o mercado internacional, especialmente Europa, Sudeste Asiático e Oceania. Dos 28 laboratórios de metanfetamina desmantelados na Nigéria desde 2016, cinco tinham mexicanos envolvidos, segundo Babafemi.
Em Moçambique, dois mexicanos foram presos em abril no aeroporto de Maputo. Depois, uma grande quantidade de produtos químicos usados na fabricação da droga foi encontrada na casa de um suposto cúmplice local.
A expansão da produção também preocupa pelo possível aumento do consumo na África. Antonio De Vivo, chefe do escritório de Maputo do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, afirmou que intermediários podem receber drogas como pagamento e depois colocá-las nos mercados locais. Paulo Ferrao, de 27 anos, que trabalha em um centro de desintoxicação perto de Maputo, relatou aumento dos casos relacionados à metanfetamina cristalina.







