A defesa de uma instituição independente para avaliar os riscos da inteligência artificial colocou a OpenAI no centro do debate sobre a governança da tecnologia. O CEO da empresa, Sam Altman, afirmou que a segurança deve prevalecer sobre o risco de processos antitruste e disse que o trabalho pode começar sem esperar uma isenção específica ou uma nova lei.
A posição veio em meio ao pedido de Dario Amodei, CEO da Anthropic, por uma desaceleração global no desenvolvimento dos modelos mais avançados. A empresa sustenta essa proposta publicamente desde junho. O manifesto ganhou força no sábado (12), depois de Jacob Coxon, 27, ex-funcionário da Anthropic e da OpenAI, afirmar que as companhias estão apostando no futuro da humanidade.
OpenAI, Google e xAI sinalizaram concordância com a redução do ritmo no avanço da tecnologia de ponta. A presidente do conselho do Anthropic Institute, Marina Favaro, disse que a organização trabalha em mecanismos de prestação de contas para assegurar que todos os concorrentes reduzam o ritmo de pesquisas.
Reação dos governos e dos mercados
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, rejeitou propostas de regulamentação. Ele argumentou que regras podem levar empresas à falência e afirmou, em publicação na Truth Social, que o controle da tecnologia depende de um presidente forte. Trump também teve um breve encontro com Altman na segunda-feira, depois de criticar a iniciativa da Anthropic.
O Ministério das Relações Exteriores da China classificou um freio tecnológico promovido por empresas como uma estratégia de contenção associada à Guerra Fria. Nesta segunda, o porta-voz Guo Jiakun disse que o objetivo seria usar barreiras tecnológicas e monopólios para preservar a hegemonia dos Estados Unidos em tecnologias de fronteira e excluir a China da governança global de IA.
Na Europa, a presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, alertou para o risco de o bloco perder acesso à inteligência artificial por causa de uma decisão externa. Ela defendeu modelos que sejam bons o suficiente para a maioria das tarefas e operem com infraestrutura europeia.
A reação também alcançou os mercados. As ações da japonesa SoftBank, que detém cerca de 13% da OpenAI, caíram 10,7%. O Nasdaq recuou até 1,2%, enquanto o Kospi caiu 3,3%. A Bolsa de Hong Kong avançou 0,2%, mas os papéis do laboratório chinês Z.AI desabaram 7,5%.
Risco de concentração
Especialistas em governança avaliam que a proposta de Amodei expõe a dependência internacional de tecnologias desenvolvidas nos Estados Unidos e na China, países que concentram os modelos mais avançados. Caetano Penna, diretor do CGEE e participante da formulação do Pbia, comparou a situação aos acordos de não proliferação nuclear.
Para Penna, uma desaceleração nos laboratórios americanos pode reduzir o acesso de pesquisadores externos aos avanços. Ele defendeu que o Brasil discuta o tema no G20, na ONU ou na Organização de Cooperação Mundial em Inteligência Artificial, fundada pela China, e amplie investimentos em capacidade de computação e processamento, supercomputadores, energia, formação de profissionais e capital para transformar pesquisa em inovação.
Renato Leite Monteiro, diretor do think tank Reglab, afirmou que a ausência de marcos regulatórios previsíveis deixa as empresas sujeitas a decisões políticas arbitrárias. Ele citou o bloqueio do governo americano aos modelos Mythos e Fable 5, da Anthropic, após o início da distribuição comercial, e disse que a regulação pode impedir que decisões pontuais paralisem operações.
A Organização das Nações Unidas também defendeu medidas. O alto comissário para os Direitos Humanos, Volker Türk, pediu nesta segunda uma ação urgente diante dos riscos dos sistemas mais avançados. “Todos os direitos humanos estão ameaçados [por essa tecnologia], incluindo o direito à vida”, afirmou.
Sérgio Amadeu, professor de políticas públicas da Universidade Federal do ABC (UFABC), apontou conflito de interesses na atuação das empresas. Para ele, uma companhia não deve definir sozinha as regras do próprio setor, porque seus objetivos financeiros não abrangem os interesses da sociedade e do meio ambiente.







