Gravações feitas em um apartamento de Anderson Cordeiro Vasconcelos registraram conversas de empresários investigados na Operação Sem Desconto sobre o dinheiro obtido por meio de associações ligadas ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). As câmeras funcionavam 24 horas por dia, e o material acessado reúne 30 minutos de imagens.
Em um dos diálogos, Igor Dias Delecrode afirmou que o grupo havia obtido um faturamento elevado em relação ao investimento inicial. “O que a gente ganhava nem multinacional ganha”, disse Delecrode em 22 de maio de 2025. A defesa afirma desconhecer o vídeo.
As investigações apontam que Delecrode e os sócios Felipe Macedo Gomes, Anderson Cordeiro Vasconcelos e Américo Monte Jr são suspeitos de faturar mais de R$ 700 milhões com quatro entidades: Associação de Amparo ao Aposentado e Pensionista (AASAP), Amar Brasil Clube de Benefícios (ABCB), Master Prev e Associação Nacional de Defesa dos Direitos dos Aposentados e Pensionistas (ANDAPP).
Investimentos e patrimônio
Nas conversas, os empresários discutiram a possibilidade de investir em franquias de venda de bolos. Delecrode relatou que Felipe Macedo Gomes teria rejeitado a ideia, por considerar baixo o retorno mensal diante dos milhões obtidos pelas associações. Anderson afirmou que também havia sido desaconselhado a entrar em outros negócios.
O grupo é associado a imóveis em Alphaville e a uma frota de carros de luxo. A Polícia Federal apreendeu 29 veículos, avaliados em R$ 28 milhões. Anderson também comentou sobre imóveis no condomínio Genesis 1 e reclamou da dificuldade para alugar uma casa, cujo valor mensal poderia chegar a R$ 15 mil. Ele disse ainda que os imóveis do local poderiam valer mais de R$ 10 milhões.
Descontos em benefícios
As associações conseguiram realizar descontos diretamente na folha de pagamento de aposentados após firmarem acordos de cooperação técnica com o INSS. Os acordos previam o repasse das mensalidades dos associados às entidades, que ofereciam serviços como seguros e planos de saúde.
A investigação apura se aposentados foram filiados de forma fraudulenta. Dados da Controladoria-Geral da União indicam que 98% não haviam autorizado os descontos, e muitos sequer sabiam da existência das associações. O esquema é investigado por ter causado prejuízo de R$ 6,2 bilhões.
Também há suspeitas de que ex-diretores do INSS tenham recebido propina para aprovar novas associações ou manter acordos em vigor durante sindicâncias. Mais de R$ 100 milhões recebidos pelas quatro entidades teriam sido direcionados a empresas ligadas aos empresários e, depois, a parentes deles.
Contratos e defesa
Empresas associadas ao grupo firmaram contratos com Eric Fidelis, filho de André Fidelis, e com Thaissa Hoffmann, mulher de Virgílio Oliveira. Os dois ex-dirigentes do INSS foram presos na Operação Sem Desconto e são citados em investigações sobre pagamentos recebidos de Antonio Carlos Camilo Antunes e de operadores ligados às associações.
Quebras de sigilo bancário identificaram transferências de R$ 8 mil de Felipe Macedo Gomes para José Carlos de Oliveira e de R$ 12 mil feitas por João Carlos Camargo Jr. para o ex-ministro da Previdência Social.
Os advogados Rogério Cury, Daniela Cury, Levy Magno e Victor Fanti, que defendem Anderson, Igor e Felipe, declararam que “desconhecem a existência, a autenticidade e a integridade dos vídeos em questão”. A defesa de Anderson também sustenta que, se os vídeos existirem, foram obtidos de maneira ilícita e criminosa.
Os empresários não foram presos. Em abril de 2026, o ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça determinou, a pedido da Polícia Federal, o uso de tornozeleiras eletrônicas.








