SÃO PAULO — Mensagens e registros financeiros citados pela Polícia Federal indicam que Augusto Lima teria atuado nas negociações entre o Banco Master e o BRB, incluindo pedidos para liberar recursos ao banco do Distrito Federal. A investigação também relaciona pagamentos feitos pelo Master à Terra Firme, empresa controlada pelo empresário, a períodos de sua atuação junto ao BRB.
O caso envolve R$ 12,2 bilhões em Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) que o BRB comprou e que são consideradas falsas pela PF. Uma auditoria mencionada na petição estimou em pelo menos R$ 5 bilhões o prejuízo do banco público com esses ativos. Os documentos ficaram públicos depois da retirada do sigilo na quinta-feira (10).
Mensagens e pagamentos
A petição registra que Augusto Lima e Henrique Peretto, apontado como controlador e dono da Tirreno, trocaram mensagens para participar de uma reunião com Paulo Henrique Costa, então presidente do BRB, em 28 de maio de 2025.
A PF afirma ainda que Daniel Vorcaro recorria pessoalmente a Lima para obter recursos no BRB. A representação descreve que o ex-banqueiro preso pedia ao empresário que interviesse para que o banco público realizasse pagamentos ao Master.
Os investigadores também analisaram transferências do Master para a Terra Firme. Os pagamentos eram formalmente apresentados como remuneração por serviços, mas a PF considera que podem indicar desvio de recursos. Valores superiores a R$ 3 milhões teriam coincidido, em vários momentos, com interferências atribuídas a Lima para viabilizar o pagamento das carteiras.
Entre os registros está uma nota fiscal de R$ 3.665.962,47 enviada em 29 de agosto de 2024. Em 7 de abril de 2025, outras duas notas somaram R$ 7.000.192,59, com valores de R$ 3.334.230,12 e R$ 3.665.962,47.
Origem das carteiras
As operações questionadas envolviam crédito consignado. As carteiras foram adquiridas pelo Master da consultoria Tirreno, criada em dezembro de 2024 e prestadora de serviços ao banco de Vorcaro entre janeiro e junho de 2025.
Parte dos empréstimos havia sido contratada por meio de associações de servidores públicos da Bahia. Posteriormente, essas operações foram relacionadas a Lima. O empresário é associado à criação do Credcesta, cartão de benefício consignado lançado para servidores públicos da Bahia em 2018 e posteriormente disseminado pelo Master para 24 estados e 176 municípios.
Na petição, a PF afirma que, a partir de janeiro de 2025, as carteiras “aparentemente, passaram a ser elaboradas pelo próprio Augusto Lima”.
O documento também aponta que o BRB já identificava problemas nas carteiras em novembro de 2024. Em conversas entre Paulo Henrique Costa e Dário Garcia, então diretor de finanças e controladoria do banco, os investigadores encontraram uma carteira Credcesta com valor contábil de R$ 179,6 milhões. Desse total, apenas R$ 110 milhões foram considerados aptos, uma redução de quase 40%.
Segundo a polícia, o episódio indicaria inconsistências no material encaminhado pelo Master. Em outra frente, Dário, com aval de Paulo Henrique, teria trabalhado para elevar de 4% para 5% o limite de inadimplência aceito nas carteiras. A proposta também previa novas compras em partes, chamadas de tranches, sem reiniciar todo o processo de aprovação.
Investigação e defesa
Augusto Lima foi preso em novembro na Operação Compliance Zero, ao lado de Daniel Vorcaro e outros executivos, sob suspeita de envolvimento nas fraudes. Ele foi solto 11 dias depois e passou a usar tornozeleira eletrônica.
A petição tem 82 páginas e traz, ao final, a data de 3 de fevereiro de 2025. A assinatura digital da delegada da Polícia Federal aparece registrada em 18 de fevereiro de 2026. O documento foi encaminhado a André Mendonça, ministro do Supremo Tribunal Federal, que assumiu a relatoria do caso no tribunal em 12 de fevereiro. A PF pedia autorização para quebrar os sigilos bancário e fiscal dos envolvidos e aprofundar as apurações.
A defesa de Lima rejeitou as acusações e afirmou que não há fundamento para atribuir a ele os ilícitos investigados. Também negou que o empresário tenha tratado com representantes do BRB sobre carteiras falsas ou participado das negociações.
Os advogados disseram que Lima deixou a sociedade e a direção do Master em 28 de maio de 2024, conforme documentação do Banco Central. A operação policial ocorreu em 18 de novembro de 2025, um ano e seis meses depois do desligamento, segundo a defesa.
A defesa afirmou ainda que havia contrato regular para os serviços prestados pela Terra Firme e que a PF já teria afastado, em relatório, a alegação relacionada às associações. Para os advogados, os pagamentos não podem ser interpretados como desvio apenas em razão dos valores envolvidos.








