VIAMÃO — A Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) informou que não foi contratada pela Corsan Aegea para elaborar estudos favoráveis à exploração de água subterrânea em Águas Claras, distrito de Viamão. A posição consta do Ofício nº 0559/2026-GR, enviado em 4 de setembro ao Movimento em Defesa das Águas Claras.
A manifestação ocorreu após o movimento questionar a vice-reitoria sobre o uso, pela concessionária, de um parecer técnico assinado pelo professor Antonio Pedro Viero, do Instituto de Geociências, em documentos apresentados à Justiça. A universidade afirmou que não celebrou contrato com a Corsan cujo objeto fosse o parecer e que o documento não expressa uma posição institucional.
O caso está relacionado à Ação Civil Pública 5030068-89.2025.8.21.0039, movida desde setembro de 2025 pelas Associações Águas Claras e Lago Tarumã contra a perfuração de poços tubulares profundos na Área de Proteção Ambiental do Banhado Grande.
Contrato e natureza do parecer
O documento analisado pela universidade, intitulado Análise dos estudos hidrogeológicos realizados no distrito de Águas Claras, município de Viamão, RS, foi datado de 24 de setembro de 2025 e elaborado por Viero em um projeto de extensão chamado Geoambiental – Serviços de Geologia Ambiental. A iniciativa é registrada sob o número IAP-003144 e conta com apoio administrativo e financeiro da Fundação de Apoio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a Faurgs.
Segundo a vice-reitoria, a remuneração decorreu do Contrato de Prestação de Serviços de Consultoria número 0098/2026, firmado entre a Corsan e a Faurgs. A universidade não é parte do contrato. O objeto é a prestação de assessoria técnica em geologia, geologia ambiental e hidrogeologia em todo o território do Rio Grande do Sul, sem previsão de defesa de um modelo específico de exploração de mananciais.
A UFRGS também declarou que o parecer é uma manifestação técnico-científica de responsabilidade pessoal do autor. Conforme o ofício, a universidade não emite laudos ou pareceres científicos como pessoa jurídica; essa atribuição cabe exclusivamente ao reitor, de acordo com o Estatuto da instituição.
A vice-reitoria acrescentou que Viero não foi designado para representar a universidade na audiência técnica de 29 de maio de 2026. Ele participou como coordenador do projeto de extensão vinculado à fundação de apoio. Por isso, referências a um parecer da UFRGS no processo devem ser compreendidas como menções a um trabalho produzido por um docente em projeto de extensão, e não como manifestação oficial da instituição.
Sem posição científica oficial
Sobre a existência de outros grupos de pesquisa que corroborassem as conclusões do parecer, a universidade respondeu que não possui posição científica institucional sobre a hidrogeologia do Aquífero Águas Claras. Também informou que não submete pareceres individuais à validação ou contestação de seus grupos de pesquisa.
A instituição relacionou essa prática à liberdade de pesquisa, ao pluralismo de ideias e à autonomia didático-científica das universidades. Cada pesquisador responde pelas conclusões que assina, enquanto os grupos permanecem livres para produzir análises próprias, inclusive a pedido de outras entidades.
O ofício também mencionou contratos encerrados entre a Corsan e a universidade, relacionados ao diagnóstico ambiental da Estação de Tratamento de Esgoto de Osório, na Lagoa dos Barros, e ao estudo de abatimento de cargas para a Região Metropolitana de Porto Alegre. Nenhum deles, segundo a UFRGS, tem relação com o Aquífero Águas Claras. Foram citados ainda dois contratos vigentes entre a Corsan e a Faurgs para o monitoramento da qualidade da água da Lagoa dos Barros e da Bacia Hidrográfica do rio Tramandaí.
O projeto da concessionária prevê 26 poços para captação de água do Aquífero Águas Claras. Até junho deste ano, seis haviam sido perfurados. Em junho de 2026, a juíza Patrícia Antunes Laydner autorizou a retomada de intervenções na adutora que ligaria os poços à rede urbana, mas manteve proibidas a captação e a distribuição da água extraída.
Iliete Citadin, da coordenação do Movimento em Defesa das Águas Claras, afirmou que a resposta da vice-reitoria diferencia a opinião técnica de um pesquisador de uma posição oficial da universidade. Para o movimento, essa distinção deve ser considerada no processo judicial.
A Corsan Aegea foi procurada para comentar as informações, mas não havia se manifestado até o fechamento do texto. O espaço permanece aberto para a posição da empresa.







