O Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) divulgou um documento com orientações sobre a frequência de consultas oftalmológicas conforme a idade e a presença de doenças ou fatores de risco. O material foi apresentado durante o 70º Congresso da especialidade.
A entidade afirma que a avaliação periódica permite identificar precocemente doenças que podem evoluir sem sintomas e causar perda visual irreversível. Os intervalos indicados são referências mínimas para pessoas sem doença ocular diagnosticada e sem fatores de risco. Quando há condições específicas, cabe ao oftalmologista definir a necessidade de consultas mais frequentes.
Frequência por faixa etária
Para recém-nascidos, o CBO recomenda o teste do reflexo vermelho nas primeiras 72 horas de vida ou antes da alta da maternidade. Alterações exigem encaminhamento urgente ao especialista.
Entre 0 e 36 meses, o teste deve ser repetido nas consultas médicas menos três vezes ao ano durante os três primeiros anos, juntamente com a observação do desenvolvimento visual, da fixação e do alinhamento dos olhos. Entre 6 e 12 meses, deve ocorrer a primeira consulta oftalmológica completa.
Dos 3 aos 5 anos, a recomendação é de pelo menos uma avaliação completa, preferencialmente antes da alfabetização. O exame inclui a inspeção dos olhos, a análise da função visual, testes de motilidade e alinhamento, medição do grau real dos olhos e avaliação do fundo de olho com dilatação.
Na idade escolar e na adolescência, até 18 anos, deve haver reavaliação periódica e uma consulta completa entre 12 e 18 anos. O documento destaca que esse é o período em que a miopia mais surge e cresce entre estudantes.
Adultos até 39 anos também devem realizar avaliações periódicas, mesmo sem sintomas. A partir dos 40 anos, a consulta deve ser anual. Nessa faixa, a prevalência do glaucoma sobe para cerca de 2%, enquanto a presbiopia aumenta progressivamente.
Para idosos, a orientação é de acompanhamento anual, no mínimo, com atenção à catarata senil e ao glaucoma. Dados internacionais reunidos pelo CBO estimam que a degeneração macular atinja 2,2% das pessoas entre 70 e 79 anos e até 10,3% daquelas com 80 anos ou mais.
Doenças e situações que exigem atenção
Pessoas com diabetes devem fazer avaliação com as pupilas dilatadas desde o diagnóstico e manter acompanhamento regular, mesmo sem queixas visuais. Cerca de 50% dos pacientes desenvolvem algum grau de retinopatia diabética, proporção que chega a aproximadamente 80% após 25 anos de doença. O risco de cegueira é quase 30 vezes maior entre pacientes diabéticos. Gestantes com diabetes precisam de acompanhamento específico.
O histórico familiar de glaucoma também exige avaliação cuidadosa. Parentes de primeiro grau têm entre quatro e oito vezes mais chance de desenvolver a doença. Pessoas com mais de 50 anos, afrodescendentes e pacientes com pressão intraocular elevada integram o grupo de risco e devem fazer exame completo, com avaliação do nervo óptico e medição da pressão ocular.
Históricos familiares de ceratocone, distrofias corneanas, retinose pigmentar e outras doenças hereditárias justificam exames antecipados e acompanhamento periódico. Em crianças míopes, a avaliação deve ocorrer a cada 12 meses; quando a condição não está controlada, o intervalo recomendado é de seis meses.
Recém-nascidos prematuros também precisam de rastreamento específico. Bebês que tenham nascido com peso igual ou inferior a 1.500 gramas ou com idade gestacional igual ou inferior a 32 semanas devem ser avaliados para retinopatia da prematuridade nas primeiras semanas de vida e permanecer em acompanhamento contínuo.
O uso de corticoides, especialmente colírios e pomadas oftálmicas, pode elevar a pressão intraocular. Essa alteração ocorre em 30% a 40% dos indivíduos em razão dessas medicações e em 5% a 6% das situações elevadas. Quanto maior o tempo de uso, maior o risco. Pessoas que precisam utilizar esses medicamentos de forma prolongada ou recorrente devem ser acompanhadas por oftalmologista.
Usuários de lentes de contato precisam de consulta pelo menos anual. O intervalo deve ser menor quando houver suspeita de distorção da córnea, alteração refracional ou redução da acuidade visual mesmo com a melhor correção.
O documento também recomenda consultas regulares para usuários de canetas emagrecedoras, diante de possível associação com neuropatias ópticas e alterações da retinopatia diabética. Hipertensão arterial, doenças reumatológicas e autoimunes, medicamentos com potencial de toxicidade ocular e tabagismo, que pode elevar o risco de degeneração macular conforme a idade, também exigem vigilância.
Importância do acompanhamento desde a infância
O CBO defende que o cuidado comece ainda na maternidade. O teste do reflexo vermelho pode identificar catarata e glaucoma congênitos, opacidades de córnea, tumores intraoculares, inflamações importantes e hemorragias dentro do olho.
Na infância, os erros de refração não corrigidos são apontados como a principal causa de deficiência visual entre crianças brasileiras, com impacto no rendimento escolar e na socialização. A ambliopia, conhecida como olho preguiçoso, pode ser prevenida com exame oftalmológico realizado até os 3 anos. Dados internacionais indicam que 40% das crianças cegas poderiam ter evitado ou tratado essa consequência com acesso ao oftalmologista no momento adequado.
Segundo o conselho, a maior parte das causas de cegueira e deficiência visual é evitável ou tratável quando identificada precocemente. No Brasil, a entidade estima cerca de 1,5 milhão de pessoas cegas. As quatro principais causas no país são catarata, glaucoma, retinopatia diabética e degeneração macular, condições que acometem idosos.








